“a corrida do rato”, de Gérard Lauzier

Noutro dia, estava eu em casa, sem nada de especial para fazer, olho para o lado e vejo, pousado na cadeira da sala, um livro de banda desenhada. Só este facto chegaria para me fazer pegar no livro, que livros de BD não abundam lá em casa, mas a capa sugeria algo vagamente tragicómico, estilo que tenho vindo a apreciar (através da leitura de, por exemplo, “fun home – uma tragicomédia familiar” – lá está, o título que me chamou a atenção)… E sendo emprestado, a ler teria de ser rápido portanto pousei temporariamente “à espera de Godot” e peguei no dito livro de BD, começando como começo sempre que um livro me desperta a curiosidade: vendo, aliás, lendo a capa e, principalmente, a contracapa. Na deste livro em particular podem ler-se três comentários, mais longos que curtos, elogiando a verve, o sarcasmo, a audácia e a sofisticação (palavras minhas) empregues pelo autor em tão bem sucedida obra. E o nome de um dos autores desses comentários não poderia nunca passar despercebido a qualquer pessoa que tenha lido um (1) livro de BD na sua vida: René Goscinny. É claro que Lucky Luke, Astérix e os outros personagens criados por Goscinny não devem nada – ou devem muito pouco – à tragicomédia mas uma referência é uma referência, e Goscinny é uma das grandes.

O livro em causa chama-se “a corrida do rato” (“la course du rat” no original francês, que, desconfio, será um trocadilho – e uma espécie de expressão idiomática -, já que “course” significa também “incumbência”, “encargo”, “missão”), e o autor – do texto e dos desenhos -, falecido em 2008, Gérard Lauzier.

Foi publicado originalmente em 1978 (pela Dargaud) e a edição de que estou a falar é de 1987 (da Meribérica/Liber), já com uma capa a contrastar com a original, aproveitando o êxito do filme “Je vais craquer!!!” (1980) e substituindo o desenho do personagem principal – Jérôme Ozendron – por uma fotografia do actor Christian Clavier (as duas capas podem ser vistas em http://www.bedetheque.com/BD-Course-du-rat-Tome-1-7422.html).

Tal como em “à espera de Godot” (que ainda não acabei), esta história parece ser sobre o absurdo da vida, a eterna insatisfação e a espera por algo indefinível…

O enredo em si é bastante ordinário, no sentido não-pejorativo da palavra – embora o que se lê e o que se vê seja por vezes ordinário no outro sentido – e a sua sinopse poderia ser algo deste género:

Jérôme Ozendron é um trintão aparentemente bem sucedido na vida, com um bom emprego, uma mulher afectuosa e três crianças lindas. Mas um dia, num evento, encontra um velho amigo que irá despertar nele velhos anseios…

No centro da trama está um triângulo amoroso feminino com o nosso protagonista lá dentro, cercado: Brigitte é a esposa dedicada, mas não incondicionalmente; Natacha é a femme fatale; e Liliane um caso de uma noite que Jérôme despreza… Todas estas protagonistas secundárias, ou quase todas, começam a história num ponto e acabam noutro, ao contrário de Jérôme, que acaba praticamente como começou, ou seja, diferente na aparência mas o mesmo na essência. E nesse aspecto há que dar o devido crédito ao autor pois o tema da história – “a corrida do rato”, ou o “labirinto”, como o protagonista às tantas diz – é conseguido em pleno, o que me lembra outra espécie de expressão idiomática: “Even if you win the rat race, you’re still a rat”.

Quanto a aspectos menos bem conseguidos, a meu ver, talvez tenha sido propositado mas o facto de ter um protagonista quase desprezível – uma das suas mulheres diz às tantas que ele não passa dum “pobre coitado” (ou “pobre diabo”) – não ajuda a criar uma ligação com o leitor. Bem vistas as coisas, não há uma personagem neste livro – exceptuando as notas de rodapé que são as crianças – que não seja desprezível ou simplesmente triste… E a alienação toma conta. O suposto sarcasmo pode ser mal-interpretado e a ironia pode ser tão subtil que torna personagens bidimensionais em caricaturas.

Tecnicamente, os desenhos e a cor são, não irrepreensíveis, mas razoáveis além de qualquer dúvida; já o texto, nomeadamente os diálogos, apresentam-se por vezes com pouca verosimilhança e, pior, certas escolhas em relação aos balões de texto dificultam a leitura ao ponto da ininteligibilidade. Além disto, não há distinção entre imagens que formam uma sequência cronológica imediata, e outras que interrompem o fluxo temporal, deixando para o leitor a ingrata tarefa de tentar adivinhar se, em certos casos, terá passado um dia, uma semana ou um ano.

Mas nada disto teria importância se a história ou algum dos protagonistas fosse original e interessante, em vez de episódios e pessoas que o autor terá presenciado/ouvido contar e conhecido, tendo depois uma vontade irresistível de representar para a posteridade, não tentando captar a alma de cada uma, chegando ao que há de humano no ridículo mas, precisamente, como tantos outros antes e depois, retratando apenas o que há de vil e superficial “naquelas pessoas”.

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