O Tempo Morto É Um Bom Lugar – Manuel Jorge Marmelo

otempomortoeumbomlugarÉ-me difícil explicar porque gostei tanto deste livro. Uma espécie de policial com uma enorme componente de mistério em redor da morte de Soraya Évora, celebridade instantânea de um programa de televisão.

Está mais que visto que há uma análise crítica muito interessante a tais programas de entretenimento, aos participantes, e a toda uma produção de fogo-de-artifício em redor de pessoas completamente desinteressantes. Gostei desta parte mas não me encheu as medidas. Não tanto como Herculano Vermelho que verdadeiramente alimentou o meu interesse neste livro. Jornalista desempregado, descontente, zangado e revoltado com a vida, vai para a prisão acusado de assassinar Soraya Évora, a tal celebridade, com quem se envolveu durante o processo de escrever a sua autobiografia. Herculano, escritor-fantasma da autobiografia de Soraya (que mal sabe ler, quanto mais escrever), dá com ela morta na sua cama.

Não se lembra de a matar, acha que não o fez, mas não se importa de ficar com as culpas. Gosta de estar preso, e sente-se menos preso na prisão do que se sentia cá fora. O conceito de liberdade é muito interessante e, se começarmos a pensar que a maioria de nós está fora da prisão mas tem os passos todos controlados, no trabalho fazemos o que nos mandam, contrariados, muitas vezes sabendo que é errado, mas fazemos. Ordens, regras, horários, despesas, impostos, conviver com pessoas que não gostamos, não escolhemos e nos são impostas todos os dias.

Facilmente a face negra da vida toma uma proporção assustadora se não houver equilíbrio com as coisas que nos fazem felizes. E todos sabemos como há dias em que tudo é tão mau que nem nos lembramos que há coisas que nos fazem felizes.

Atraem-me as teorias de Herculano, encarcerado e feliz, sentindo-se livre longe de tudo e de todos. Transforma o tempo morto num tempo positivo de reflexão e escrita. Se o resultado lhe é benéfico? Não posso revelar o final do livro. No entanto o importante aqui não é chegar ao fim para saber o que aconteceu, quem morreu, quem viveu ou quem matou. Aqui importa o percurso. A escrita é deliciosa e marcante; implacável com uma actualidade que nos mata todos os dias um bocadinho mais. A nós que somos livres.

E assim fiquei agarrada ao Herculano, aos seus pensamentos e delírios distópicos, no lugar do tempo morto onde finalmente escreve como se estivesse vivo.

Genial. Um autor a seguir.

“Deixei há muito tempo de gostar de gente. Existe um ou outro indivíduo notável, mas, em conjunto, as pessoas são uma massa lamentável. (…) Não gostando de gente, é natural que termine os meus dias amargo – como deviam ser todas as pessoas desiludidas com a espécie que lhes calhou pertencer. Se puder ficar no estabelecimento prisional, tanto melhor. Estou protegido da carneirada e ser-me-á muito menos penoso estar preso do que ter de voltar a comportar-me como os outros indivíduos do mundo, cumprindo as mesma regras cínicas, vivendo de acordo com os mesmos preceitos hipócritas. Não preciso, aqui de ser cortês, educado, polido ou simpático com sujeitos que me repugnam, e posso muito bem ignorar que existem. É como se tivessem sido apagados do mundo. Não os vejo, logo não perco tempo a execrá-los, nem estrago o meu humor com isso.” (Pág.76 e 77);

“A consciência não é, afinal, mais do que uma invenção moral, um puro conceito abstracto que qualquer indivíduo habituado a prejudicar o seu semelhante pode perfeitamente dispensar.” (Pág. 124)

Sinopse

“Depois de acordar ao lado do cadáver de Soraya – a mestiça belíssima, estrela televisiva, com quem mantinha uma relação íntima a pretexto de lhe escrever a autobiografia -, o jornalista desempregado Herculano Vermelho entrega-se à polícia e é preso. Não tem memória de nada, nem de que possa ter sido ele a matar a jovem mulher, mas a prisão parece-lhe ser o lugar ideal, o espaço de sossego e de liberdade (sem contas para pagar, sem apresentações regulares no centro de emprego, sem pressões de qualquer espécie), para passar a sua vida em revista, a relação com as mulheres, e escrever a autobiografia da rapariga morta.”

Quetzal, 2014

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