A peregrinação do rapaz sem cor, de Haruki Murakami – Opinião

A minha relação com os livros de Haruki Murakami não tem seguido uma linha recta e ininterrupta, antes pelo contrário. As leituras e a interpretação que faço dos seus livros, personagens e enredos, levaram-me a querer conhecê-lo melhor, especialmente quando tomei conhecimento de que era corredor de ultra maratonas. Na época pensei: como é que alguém tão disciplinado e persistente se revela um autor entregue a tanta divagação e peripécias fantasiadas e oníricas!? A dúvida persistiu e isso fez-me intercalar muitos dos seus livros com outros e, até certa parte, (quase!) desistir de lê-lo. Isto porque os contos de Murakami deixam-me sempre na dúvida… por isso, parei e não o tenho lido quase nada.

Curiosamente foi com “Sono” que despertei novamente para Murakami. Talvez por esse conto me ter deixado num limbo de tédio inquietante. Fiquei mentalmente fatigada por tanta ideia repetida, mas igualmente disposta a escrutiná-lo até à exaustão e ligá-lo a considerações sobre mim mesma.

Por isso, assim que surgiram as primeiras impressões sobre este novo “A Peregrinação do rapaz sem cor”, senti-me tentada a ficar sob o efeito… a deixar-me ficar murakamizada.

E fiquei! A vontade de prosseguir ou retomar leituras de Murakami voltou, não talvez aos seus enredos mais fantasiados e oníricos, mas aqueles que esmiúçam e propagam no território da introspecção, elevando-nos o pensamento, sobre nós e os outros.

Os detalhes da escrita redundante e até difusa estão lá e alguns desvarios e persistência na melancolia e uma certa depressão também, porém há uma aura mais romântica, ainda assim fria e distante, que envolvem o personagem, tornando-o menos bipolar que outras personagens de Murakami.

Tsukuro Tasaki sofreu com o abandono por parte dos amigos, uma solidão exacerbada e violenta, auto-infligida e mantida, como se o próprio Tasaki decidisse, no isolamento, a punição pelos seus pecados. Pormenor interessante foi deixar-se ficar, anos e anos, sem saber o porquê desse isolamento. O que levanta uma questão curiosa: ficaríamos nós tantos anos nessa inquietude?

Há um permanente desassossego nas personagens de Murakami e talvez, através da reduzida celeridade imposta pelas descrições do autor, nos vamos alimentando dos cenários mentais criados para a inquietude do personagem, levando o leitor a simpatizar com ele e em certa parte, compreendê-lo, aceitá-lo e seguir com ele esta jornada menos colorida.

“O coração humano é como um pássaro nocturno. Espera por qualquer coisa em silêncio

e, (…) levanta voo e vai direito a ela.” (pp.258)

Ardilosamente, Murakami constrói Tsukuru Tasaki, um fazedor de coisas, aparentemente sem cor, no entanto, há uma certa transparência reparadora nas atitudes de Tsukuro, conseguindo apaziguar e envolver quem com ele se cruza.

Claro que a forma inebriante e encantatória do sonho se mistura na interpretação da realidade e isso faz-nos ter algumas reservas sobre o personagem. Ainda assim, a forma pragmática e até inocente de reservar os problemas para mais tarde… nas gavetinhas da mente… dão uma ideia muito interessante da forma como talvez o autor deseja que o leitor veja o personagem.

Existe sempre uma infantilidade genuína que o acompanha, mesmo assim é uma ternura moderada que facilmente abandona o livro quando Murakami instruí o leitor sobre estações, música clássica, ou detalhes culturais ou tradicionais do Japão… o que também é hábito nos livros do autor. Neste levou-me até um cenário que apreciei bastante. E levou-me a compreender que os romances de Murakami estão pejados de tumbleweeds, alimentando a nostalgia e a melancolia que nos fazem por vezes regressar a certas estações da vida.

Com a sonoridade de “Le mal du pays” e as tumbleweeds de fundo, Murakami encaminha-nos na peregrinação sensorial, musical e tanto mais da vida de Tsukuro Tasaki. No reencontro com Haida, Sara, Shiro, Kuro, Ao e Aka, Tsukuro pára e avança e encontra as várias estações da sua vida.

“As nossas vidas são uma partitura complexa (…) interpretá-la correctamente revela-se uma tarefa árdua e, mesmo que se consiga fazê-lo e produzir os sons correctos, não significa forçosamente que as pessoas captem e compreendam o sentido implícito.” (pp.335)

*

“- É muito simples. Se não houvesse estações, os comboios não paravam.”

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