A Visita do Brutamontes – Jennifer Egan

avisitadobrutamontesSinopse

“Bennie Salazar, antigo punk rocker, está a envelhecer e é agora um executivo discográfico; Sasha é a sua assistente, uma jovem mulher impetuosa e cleptomaníaca. Apesar de Bennie e Sasha nunca chegarem a descobrir o passado do outro, o leitor vai conhecê-lo, até ao mais íntimo detalhe, bem como a vida secreta de um variadíssimo leque de personagens, cujos caminhos se cruzam com os deles ao longo de muitos anos e muitos lugares: Nova Iorque, São Francisco, Nápoles e África. A Visita do Brutamontes é um livro sobre a interação do tempo e da música, a capacidade de sobreviver, e as mudanças e transformações, quando inexoravelmente postas em movimento ainda que pelas mais efémeras conjunturas do nosso destino. Numa arrebatadora plêiade de estilos e registos – da tragédia à sátira, passando pelo Power Point – Egan captura a corrente que nos atrai para a auto-destruição – à qual sucumbimos se não a soubermos dominar; a fome de redenção de cada homem e mulher; e a tendência universal para alcançar ambas através da ação “condutora” da arte e a música e escapando à impiedosa passagem do tempo. Um livro astuto, surpreendente e hilariante.”

É a primeira vez que, ao escrever a opinião sobre um livro, começo por apresentar a sinopse. Porque foi esta sinopse, a que chamaria antes uma introdução, dado que acho que é impossível realmente escrever uma sinopse sobre este livro, que me levou a comprá-lo, por impulso, com um palpite de que o iria adorar, no mínimo.

Pois estes palpites são muito perigosos. Li umas cem páginas do livro com dificuldade em situar-me cronologicamente, e em perceber quem era a voz de cada capítulo. Lendo aquilo a que chamam sinopse fiquei com a ideia que Bennie e Sasha seriam uma espécie de personagens principais, que toda a acção do livro decorreria em seu redor. E confirmo que assim é. Mas é muito mais do que isso. Há muitas mais personagens e não sei quem são as principais. São todas, numa amálgama de acontecimentos que me fizeram cair a pique na realidade passado-presente-futura de cada uma delas.

Cada capítulo é uma surpresa. Imprevisível. Nunca sabia situar o espaço e o tempo. Parece estranho. E é. Larguei o livro. Vi que estava em bom estado e pensei em voltar à livraria e trocá-lo por outro. Mas depois voltei. Porque o raio de livro semeou em mim uma vontade de o perceber e deslindar que me desafiava. Aceitei o desafio e descobri um dos livros com a estrutura mais impressionante que já li. Entreguei-me com atenção, com vontade de saber tudo sobre esta gente louca que me foi sendo dada aos pedaços, pelas vozes uns dos outros, em décadas para trás e décadas para a frente, sentindo-me um detective a procurar pistas que me ajudassem nessa localização.

No fim fiquei a conhecê-los quase desde a infância. E até sei um pouco dos seus futuros. O primeiro livro que li com uma apresentação de powerpoint. Mais uma coisa que me arrepiou os cabelos mas que depois até achei piada.

Além da estrutura, completamente inovadora, que acabou por me convencer e agradar, há a maravilhosa escrita de Jennifer Egan, que brinca com as confusões que ela própria cria de forma a fazer-me ler repetidamente trechos e ficar, a cada releitura, mais impressionada com a crueza e secura das descrições, não só das acções, mas dos pensamentos deste grupo peculiar. Uma capacidade de construir e desconstruir vidas que me deixou claramente morta de inveja.

Gostava de concluir alguma coisa assim interessante e surpreendente mas nenhuma conclusão que escreva fará justiça à surpresa de ler “ A Visita do Brutamontes”. É capaz de haver uma lição qualquer nisto tudo, acho que tem a ver com o tempo (que se calhar é a tal personagem principal do livro), na forma como nos transforma, esmaga ou enaltece. Com as coincidências e os rumos escolhidos. E claro, com drogas, sexo e rock n’roll.

Para mim fica a dúvida de quem será o jurí do Prémio Pulitzer. Eu que tenho “O Pintassilgo” ali a marinar por achar que tem páginas a mais e história a menos. Será o mesmo que atribuiu o Pulitzer a este Brutamontes em 2011? Talvez. A meio de uma trip de Ecstazy.

Leiam e falem comigo que este livro merece discussão.

“E é possível que uma multidão, num momento particular da história, crie o objeto que justifica o seu ajuntamento, como sucedeu no primeiro Human Be-in e no Monterey Pop e no Woodstock. Ou poderá suceder que duas gerações de guerra e de vigilância tenham deixado as pessoas ávidas pela personificação das suas inquietações na forma de um homem solitário e instável a tocar uma slide guitar.

(…)

Quem lá esteve naquele dia poderá dizer-vos que o concerto começou verdadeiramente quando Scotty se pôs em pé. Foi então que ele começou a cantar as canções que ninguém jamais ouvira, nem algo que se parecesse com elas – “Olhos na Minha Cabeça”, “Xis e Ós”, “Quem Observa Melhor” – baladas de paranoia e despojamento arrancadas do peito de um homem que, logo que se olhava para ele, se sabia nunca ter tido uma página, nem um perfil, nem um manípulo, nem um aparelho portátil, que não fazia parte dos dados de ninguém, um sujeito que vivera todos aqueles anos enfiado num buraco, esquecido e cheio de raiva, de uma maneira que agora se registava como pura. Intacta.” (Pág. 364).

Quetzal, 2012

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