Serpentina, de Mário Zambujal

serpentina

Quando, em 1980, li a ‘ Crónica dos Bons Malandros ‘ aprendi uma lição de vida, qual era a de não permitir que preconceitos bacocos me toldassem o espírito. Esse romance trouxe-me a grata surpresa de perceber que os autores portugueses sabiam lidar com as palavras e ideias com a mesma magia, se não maior, que alguns dos estrangeiros que me enchiam a estante. Fiquei fã de Mário Zambujal e desde essa altura foi um fartar vilanagem, no aproveitar da sua enorme capacidade de nos adentrar e remexer com uma escrita que nos obriga a acenar, a sorrir e a rir e a admitir-lhe a arte de nos escrever a vida como ela por vezes é. Como por vezes ela é mesmo.

Serpentina é, uma vez mais, a tacada perfeita do bilharista que perfaz sem erros, calculando tabelas, pancadas e consequências. Serpentina apanha-nos de repente, dá-nos uma boleia por mais uma viagem alucinante, em que Mário Zambujal nos obriga a curvas e contra-curvas, sem pedir autorização, sem nos assustar com as guinadas, pois sabemos-lhe mestria para cortar a linha da meta, estacionar e permitir-nos sair.

Zonzos.

Sãos e salvos.

Desejosos do próximo.

Em Serpentina andamos do crime para a volúpia, do óbvio bem contado para o nonsense que nos abana.

Adivinhamos o que se segue e falhamos a previsão?

Gostamos!

Adivinhamos de novo e agora acertamos?

Gostamos.

Mário Zambujal é mestre na arte de ser justo com o leitor. Deixa-o estar sentado, descansado, ripa uma biqueirada na base e caímos com estrondo, erguemo-nos a sorrir para de novo nos sentarmos e desejar secretamente a próxima bordoada.

Mário é Mário … e se se autodescrevesse deveria andar perto disto:

‘ Marinho Mão Solta não abdicava do perverso momento em que despia o leitor de suas armas e o acariciava com um manancial de malvadezas. Não que o seu propósito fosse obscuro ou condenável, mas atirar para o chão homens e mulheres ávidas de uma história bem contada dava-lhe a oportunidade de lhes passar por cima, atropelando-os com tão pouca piedade que o resultado não poderia ser outro que o aplauso da vítima. Marinho Mão Solta era um bom malandro, isso sim, e nem a mais avisada aventureira poderia negá-lo … ‘

Leiam ‘ Serpentina ‘, só poderá fazer-vos bem!

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7 pensamentos sobre “Serpentina, de Mário Zambujal

  1. João,
    Adorei a tua opinião!
    Também sou fã de Mário Zambujal desde “os bons malandros”, dúvidas tivesse acerca da migração de “Serpentina” para a minha estante e para a minha memória e tê-las-ias dissipado.
    Avivaste a urgência da sua leitura.
    Obrigada!

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