“MAL NASCER” – o regresso de Carlos Campaniço

Regressar à escrita de Carlos Campaniço foi um enorme gosto. Retornar igualmente ao (áspero) Alentejo foi igualmente muito bom e aliás, espero que o autor lá volte novamente, pois estou em crer que se sairá bem novamente.
De “Mal Nascer” este romance têm apenas o nome e o berço de Santiago. O mau agoiro, o azar, a dureza da campo, as dificuldades, a violência… a tal aspereza alentejana só trazem de bem e de belo à escrita e à narrativa do autor. Já assim esperava, é certo. Depois do fantástico “Os demónios de Álvaro Cobra”, só posso tecer bons comentário a este novo romance. Aliás, acho extraordinária a capacidade de transformação, tanto na abordagem ao Alentejo, como na mastigação deste enredo e mais ainda no toque especial que a linguagem deste romance contêm. É louvável que um autor consiga tal mudança camaleónica, já que nem todos conseguem. Ou seja, muitas vezes, um autor escreve, narra e compõe de uma forma e é só com essa que nos brinda, não é mau, antes pelo contrário, quem gosta, facilmente gostará sempre. No entanto, na escrita de Campaniço encontramos mudança, total transformação, ambos bons livros, ambos boas surpresas. O que nos deixa com ânsias por um terceiro livro, aguardando algo, novamente bom e “igualmente” diferente.

Na personagem de Álvaro Cobra, Carlos Campaniço deu asas à imaginação e teve rasgos de criatividade divinais, com Santiago Barcelos – nascido Bento -, o autor trouxe-nos uma história dura e plena de realismo. Retratando e enquadrando o nosso país e mais propriamente o Alentejo num período conturbado entre absolutistas e liberais. Num relato marcado pela linguagem mais “regionalista” do Alentejo de outrora, que tanto brilhantismo dá ao enredo, situando-nos definitivamente naquelas terras, naqueles campos, mas também na violência tida no calor do lar.

Este romance é uma denúncia, é um reclamar pelos direitos das mulheres, num período e numa localização tão marcada pela desigualdade e pela violência, não só tida para com as mulheres, como também na desvalorização e no conceito da infância, tão pouco reconhecida como tal.

“Mal Nascer” não verte só as dores de uma mãe ou as injustiças com um filho, abandonados um pouco à sorte do campo, criados a meias com os bichos e a jorna na terra. Este enredo relata também o poder, as ordens às mãos de um só homem, revelando o peso da riqueza e das terras. Mas há ainda espaço para o amor, trazendo uma certa inocência e sensualidade ao ambiente, mitigando as mágoas de Santiago, fazendo-o sonhar. Pelo menos até certa parte. Mesmo nessa parte, de amor fatal e incondicional, o autor é bem sucedido. É sensível, sem ser lamechas, é sensual sem ser banal.

Há em todo o livro uma luta pela dignidade, pela sobrevivência, pela liberdade e pelo amor, enaltecendo assim as personagens e envolvendo o leitor, que anseia por um desfecho que teima em fugir por entre os dedos. A leitura tornou-se a certa parte comovente, em especial para mim, a parte da infância. Certas partes foi como estar entre família e ouvi-los relatar a dura infância na aldeia, alguns períodos de fome ou escassez ou as alegrias de brincadeiras simples e até certas diabruras com os bichos.

Se por um lado o livro é pleno no relato amoroso, até meio inocente, é duro e negro no expor o embrutecimento das gentes largadas à mercê das necessidades do campo e das intempéries de um Alentejo de extremos. Digamos que o livro tem uma capacidade transformadora fenomenal, é como ir, de bestial a besta, acho que me entendem. É nisso que eu gosto ainda mais deste livro. É o seu realismo, a sua força.

Não posso deixar de dizer que existem personagens apaixonantes e a Amália é uma delas.
Mais apaixonante é a capacidade do autor em criar um cenário com meia dúzia de palavras, como se numa pequena frase fosse tudo dito.

“Dá-se uma primavera numa sala de inverno.” (pág.100)

E fica tudo dito!

As diferenças são inúmeras, porém há uma certa constante nos dois romances que li de Carlos Campaniço. É o retorno ao Alentejo, a paixão pelas gentes e tradições, e a vontade de espelhar, através de personagens densas, os traços marcantes de um país e de uma época. E os rasgos de criatividade continuam lá, desta vez mais pelo esmero na escolha da palavra.

“Começo a ter uma fome miudinha que me rói o estômago como os bichos-da-seda fazem às folhas. Já nem dois cocharros de água me afastam as lembranças da comida.”

Uma edição Casa das Letras. Veja a sinopse, aqui, no booktrailer.
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