“Biografia Involuntária dos Amantes” – o retorno aos livro de João Tordo – Opinião

Biografia involuntária dos amantes talvez seja um livro para não compreender. Ou melhor, não compreendemos toda esta voluntariedade que esta submersa numa vontade obscura e meio distorcida do personagem principal em sofrer as dores alheias.
O enredo tem um fio condutor um tanto alucinante. Se pelo início, colidimos com inúmeras questões de verosimilhança, mais tarde abdicamos das dúvidas e deixamo-nos viajar por Pontevedra e Santiago de Compostela e deleitamo-nos com a aproximação entre duas pessoas, que o acaso e a empatia juntou.
Se a persistente melancolia de Saldaña Paris é como que uma rota de colisão entre o passado, o presente e o futuro. ..
….
“A essa melancolia chamamos vida adulta.” (pp.94)
Não deixa então de ser curioso que essa vida adulta seja então tão insípida e vaga, oca e cheia de ecos, que fazem o narrador e personagem central, se é que tem melancolia suficiente para ser central, abandonar a sua vida adulta. Parte ao desconhecido, meio ao abandono em busca de algo tão vasto, como o rasto do amor de um homem por uma mulher.
“A melancolia é impossível de combater porque, a partir do momento em que nos aventuramos no mundo, teremos sempre saudades de tudo. De tudo. Do que fizemos e do que não fizemos, de quem se cruzou no nosso caminho e de quem jamais conseguiremos encontrar. Cuidar das plantas no nosso jardim é prolongar a existência a criaturas que hão-de morrer quando nos esquecermos delas; é querer fazer com que o amor dure mais tempo para, quando nos virmos livres desta vida de uma vez por todas, partirmos de coração a transbordar de tudo o que deixamos para trás.” (pp.408)
Esta leitura, parte de um estranho altruísmo. Um amor ao próximo que não é senão o amor a nós mesmos. Uma luta pela maior e mais profunda interiorização do que somos ou do que podemos ser.
O que me leva a perguntar: até que ponto, quando ajudamos o outro, não nos estamos a ajudar a nós mesmos?
Dessa divagação chego à palavra que maior enigma me traz perante o título, involuntária. É voluntário, é voluntariado! Foi nisso que eu pensei. O narrador meio incógnito, um locutor, um professor, marido, pai, o pai da Andreia é um voluntário na organização e rumo da vida alheia. É nesse acto, quase missionário – ou não surgisse Santiago de Compostela como destino – que um homem, parte em missão pela vida de outro homem.
Parece inocente, mas é quase como se na força da perseverança de um se salvasse o amor à vida de outro e no seu somatório se salvassem uma série de vidas e de amores. Como se algo mágico e místico, equilibrasse, com uma grande mão, o balanço frágil com que o mundo avança.
Será esse o gatilho? Será esse o segredo? Ou será mais uma questão estúpida e dotada de um enorme grau de hipocrisia…
 
“O mundo tinha a consistência da água e, por mais perfeita que fosse a concha que formássemos com as mãos, essa água era impossível de reter.” (pp.366)
Fazia tempo que não pegava num livro do Tordo, mas este foi uma surpresa. Uma leitura incessante!
Uma edição Objectiva/Alfaguara.
Para ouvir na TSF, no Livro do Dia
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