“Stoner” de John Williams

 

Stoner

 

À primeira vista, este parece ser apenas mais um livro perdido na torrente editorial dos nossos dias; um volume discreto, talvez até banal. No entanto, “Stoner” é um excelente exemplo do romance, de uma história sobre pessoas comuns, com vidas vulgares, sem talentos ou dons extraordinários, cujos anseios e preocupações são iguais aos de todos nós. Não me parece estranho que este livro tenha tido um percurso tão discreto quando da sua primeira publicação em 1965. Um romance de época sobre a vida de um apagado professor universitário, passado no início do século XX, não seria, talvez, uma obra muito apetecível num período caracterizado por intensas mudanças nos paradigmas sociais nos EUA , como por exemplo, os movimentos “hippie” e de luta contra a guerra do Vietname assim como pelos direitos civis da população negra. Toda esta agitação social foi acompanhada pela efervescência de um frenesim criativo, nas artes e nas ideias, que procurava desbravar novos rumos, rompendo com as normas vigentes, e onde uma obra como esta facilmente se diluiu.

A resiliência lúcida e tranquila do seu protagonista, o seu amor pela literatura e pelos livros , bem como o estilo simples, recatado, talvez até despojado, da escrita do seu autor encantaram-me e emocionaram-me profundamente. Tal como uma pequena pedra arremessada às águas serenas de um lago cujo embate produz um belo padrão de círculos concêntricos, “Stoner” consegue gerar no leitor uma intensa cascata de emoções, tornando-se assim numa leitura muito interessante e, sem dúvida alguma, marcante. Não consigo deixar de ficar fortemente impressionada por essa capacidade notável que alguns autores, entre os quais John Williams, têm em transmitir uma panóplia imensa de emoções profundas através uma escrita fluida, simples, quase ascética e, afortunadamente, isenta de lamechices e sentimentalismos fáceis e ocos.

Um livro a reter, a ler e a saborear, sobretudo para os irremediáveis amantes dos livros e da literatura.

Saibam mais sobre “Stoner” lendo as opiniões da Márcia e da Sónia.

Excertos:

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.”

“(…) que a pessoa que amamos no início não é a mesma que amamos no fim, e que o amor não é uma meta mas sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer outra.”

“As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia.”

 

 

 

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7 pensamentos sobre ““Stoner” de John Williams

  1. Fico contente por também teres gostado! Eu não estava à espera de gostar tanto, foi uma surpresa. É tão bom quando os livros nos impressionam assim!

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