Stoner – John Williams

Um livro quStonere andou perdido durante 50 anos e foi depois redescoberto e aclamado por leitores e autores consagrados como uma obra-prima? Curioso. Comecei a lê-lo muito pouco convencida de que fosse assim tão extraordinário. Mas… tive duas surpresas: primeiro, fiquei agarrada ao livro da primeira à última página. Depois, ao longo de toda a leitura, tive a sensação nítida, por vezes quase palpável, de que há algo nesta obra que é realmente fora de série. Algo muito invulgar, que ultrapassa largamente a experiência normal de ler um livro, mesmo um livro de qualidade; algo que se nos introduz debaixo da pele e ali fica, incómodo como um corpo estranho, acrescentando um não sei quê indefinido àquilo que éramos antes.

Não é apenas a escrita. A escrita é bela como todas as coisas simples e escorreitas e transmite a mensagem com uma clareza por vezes assustadora. Mas não é só isso. Também não é só a pungência do relato – a vida de Stoner é, na verdade, uma sucessão de oportunidades perdidas por falta de combatividade do protagonista, mas está longe de se reduzir a isso. Para mim, o que há aqui de tão profundamente perturbador é a perspectiva inesperada sobre a definição de conceitos-chave de qualquer vida humana, como o fracasso ou a felicidade.

À primeira vista, Stoner é um fraco que se deixou levar pelas circunstâncias da vida sem nunca conseguir combatê-las. Foi para a universidade por imposição dos pais e para professor por sugestão de um mestre. O seu casamento falhou porque nunca conseguiu aproximar-se da mulher nem criar com ela qualquer tipo de intimidade, amizade ou cumplicidade. Perdeu a companheira que realmente amava porque não teve a coragem de assumir a relação perante o mundo. Deixou que a mulher infernizasse a vida da filha para o ferir, porque não foi capaz de lhe fazer frente quando isso se impunha. E, como todos os fracos, encontrou um escape que o ajudou a abstrair-se de todos os seus fracassos – no seu caso, felizmente foi algo nobre como a paixão pela literatura e pelo ensino.

Acontece que, à medida que vamos lendo, algo de muito estranho vai acontecendo. A pouco e pouco, vamos interiorizando a visão de Stoner sobre a vida. Vamos absorvendo o seu olhar sobre o que o rodeia. E começamos a sentir, mais do que a compreender, a paz que a sua postura gera em todas as circunstâncias. O que não significa ausência de sofrimento. Significa apenas que tanto a alegria como a tristeza são vividas com uma tranquilidade que permite a instrospecção. E permite ainda outra coisa: manter o ruído causado pelos desgostos e agruras da vida sempre abaixo de um determinado nível, acima do qual só se permite que uma única emoção extravase – a paixão, geralmente sob a forma de paixão pela aquisição e transmissão do conhecimento. E, assim, apesar de a vida de Stoner denotar todos os sinais exteriores de um fracasso em todas as frentes, somos obrigados a reconhecer que Stoner foi, maioritariamente, feliz. Então, o fracassado será ele ou quem vive para o sucesso exterior sem nunca alcançar a felicidade?

A serenidade de Stoner é particularmente notória quando a morte se aproxima. Qual de nós não desejaria viver os seus últimos momentos com a mesma imperturbabilidade com que Stoner viveu os seus? Mas afinal… Stoner não era um fraco?

Excertos:

“Terceiro Ato, Cena quatro – disse Masters. – E, assim, a providência, ou a sociedade, ou o destino, ou seja qual for o nome que lhe quiserem dar, criou este telheiro para nós, para nos abrigarmos da tempestade. É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Enumeramos as razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos. Tal como a Igreja na Idade Média, que se estava nas tintas para a laicidade ou inclusive para Deus, também nós temos as nossas pretensões para podermos sobreviver. E sobreviveremos… porque temos de o fazer.” (pág. 32-33).

“Enterrou-a ao lado do pai. Terminada a cerimónia fúnebre, e depois de os poucos convidados terem partido, Stoner ficou sozinho, no vento frio de novembro, a olhar para as duas campas, uma aberta, tendo acabado de receber o seu fardo, e a outra coberta de terra e ervas penugentas. Virou as costas ao pequeno cemitério árido e sem árvores, onde jaziam outras pessoas como os seus pais, e olhou para a extensão de terra plana, na direção da quinta onde nascera, onde os pais tinham passado a vida inteira. Pensou no preço que a terra, ano após ano, exigira; e continuava como sempre fora… um pouco mais árida, um pouco mais frugal. Nada mudara. As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia. Lentamente, a humidade e a putrefação infestariam os caixões de pinho que continham os seus corpos e, lentamente, tocariam a pele deles e, por fim, consumiriam os últimos vestígios da sua essência. E eles tornar-se-iam uma parte insignificante dessa terra obstinada à qual se tinham entregado de corpo e alma, havia muito.” (pág. 100)

2014, Publicações D. Quixote

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5 pensamentos sobre “Stoner – John Williams

  1. Pingback: “Stoner” de John Williams |

  2. Jorge, muito obrigada! Não tenho qualquer pretensão a ser crítica literária, apenas escrevo o que me vai na alma… mas elogios destes sabem maravilhosamente!

  3. Marta, a edição portuguesa está muito boa. Se a brasileira tem esses problemas, não estrague a leitura de uma obra fantástica lendo-a numa má tradução. Aconselho vivamente a portuguesa.

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