Ressurgir – Margaret Atwood

ressurgirPenso que todos criamos a imagem de que há autores que não podem desiludir. Criamos um espaço especial para eles na estante e sabemos que é garantido. Mas não é. E Margaret Atwood é tão completa que até escreveu Ressurgir, um livro que, infelizmente, me desiludiu e ficou muito aquém das expectativas.

Os elementos principais da sua escrita estão lá, assim como, as suas ideias e filosofia de vida. O que é fantástico tendo em conta que este é o seu segundo romance, escrito em 1972. Mas senti falta do empolgamento a que me habituei ao ler Atwood. Ressurgir é morno se comparado com Orix e Crex ou o Ano do Dilúvio. É necessariamente mais simplista e embrionário, afinal são trinta anos de diferença.

Encontrei uma Atwood emergente, com ideias bem claras sobre o lugar da mulher na sociedade e o papel do Homem na natureza. A igualdade de sexos e de espécies. O caminhar ao lado e não à frente. A procura de respostas para perguntas diferentes e inovadoras na década de setenta. Confirma-se uma mulher muito à frente do seu tempo mas que, quanto a mim, ainda estava a aprender a utilizar tais armas.

Este livro é, por isso, bastante experimental. Por querer tanto demonstrar uma filosofia e modo de vida inovador arrasta-se e repete-se, o que me dificultou a leitura. O prazer das primeiras páginas foi sendo anulado pois senti que a forma de transmitir ideias se limitou à mera insistência. O tempo corre de forma lenta, numa ilha com um lago, em que um grupo de quatro amigos procura alguém desaparecido. Essa busca transforma-se num viver em harmonia com a natureza, num conjunto de rituais repetitivos e francamente chatos. Às tantas fui perdendo o fio condutor, pois não consegui evitar saltar páginas. Posso ter perdido desenvolvimentos importantes e ter deixado escapar a “chave” que me iria fazer olhar para este livro de forma completamente diferente, mas a verdade é que, a certa altura, deixou de me apetecer lê-lo.

Atwood aprendeu, com o tempo, a levar o leitor de outras maneiras e ainda bem.

Irei certamente continuar a descobrir a sua obra.

“Eles devem achar estranho um homem com a idade dele passar o inverno sozinho numa cabana, a quinze quilómetros de nenhures; eu nunca questionei essa opção, para mim era lógica. Eles sempre desejaram mudar-se para aqui logo que pudessem, depois da reforma: ele amava a solidão. Não é que não gostasse das pessoas, achava-as apenas irracionais; os bichos dizia ele, eram mais consistentes, pelo menos comportavam-se de um modo previsível.” (Pág. 59)

Sinopse

“”Ressurgir” é o segundo romance de Margaret Atwood e nele são já visíveis os traços essenciais da sua ficção.
Uma jovem mulher viaja até à remota ilha da sua infância, com o companheiro e um casal amigo, para investigar o misterioso desaparecimento do seu pai. Após a chegada à ilha, antigos segredos afloram à superfície do lago que os rodeia, com objetos nele afundados.
Imersa nas suas memórias, a narradora compreende que regressar a casa é não apenas voltar a outro lugar, mas também a outro tempo. E depois de descobrir uma caverna submersa com pinturas rupestres, imagina-se em fusão anímica com a natureza.
“Ressurgir” é um romance preocupado com as fronteiras da língua, da identidade nacional, da família, do sexo e dos corpos, tendo como pano de fundo um Canadá rural, transformado pelo comércio, a construção, o turismo e a engrenagem dos média.”

Relógio d’Água, 2014

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