“A peregrinação do rapaz sem cor” de Haruki Murakami

 

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A beleza delicada da borboleta presente na capa deste romance reflecte, com elegância e perfeição, o seu conteúdo. É comovente o percurso de Tsukuru Tazaki, construtor de estações de comboios, o rapaz desprovido de cor, cuja vida sofre um enorme abalo ao ver-se votado ao ostracismo pelos seus melhores amigos. Incapaz de compreender as razões desta situação, uma vez que as mesmas lhe são escondidas, Tsukuru vive numa espécie de limbo emocional, sentindo-se vazio por dentro e impossibilitado de estabelecer relações interpessoais profundas. Determinado a descobrir os motivos do comportamento dos seus amigos dos tempos da adolescência, empreende então uma viagem para conversar pessoalmente com cada um deles, a fim de esclarecer o enigma do passado. Ao longo deste seu percurso e, ao mesmo tempo que vai descobrindo, a pouco e pouco, a verdade sobre o comportamento dos antigos amigos, Tsukuru reencontra a sua capacidade plena de sentir, preenchendo assim o vazio que o habitava. Esta “Peregrinação do rapaz sem cor” é relativamente parca em elementos fantásticos/surreais comparativamente a outras obras do autor como, por exemplo, “Kafka à beira-mar”, “1Q84” e “Crónica do pássaro de corda”, parecendo, à primeira vista, mais simples e menos brilhante do que estes outros livros. No entanto, ao terminar a leitura, apercebi-me que, na sua aparente simplicidade, esta história contém em si, não apenas uma enorme riqueza emocional, como também vários convites à reflexão sobre o modo como vivemos actualmente e como nos relacionamos uns com os outros. Nesta era das tecnologias de informação, criadas para facilitar a aproximação e a comunicação entre as pessoas, parece que, estranhamente, nunca estivemos tão longe uns dos outros, tão sós dentro de nós mesmos. Talvez estejamos apenas em presença de novas variações acerca da vivência deste velho paradoxo chamado ser humano.

Gostei muito e recomendo.

Excertos:

“Sobrara apenas uma espécie de resignação mansa. Um sentimento neutro, desprovido de cor, como a calmaria que vem depois da tormenta. Tinha a impressão de estar sentado numa grande casa, velha e abandonada, enquanto o enorme e vetusto relógio de família assinalava pesadamente as horas. De boca fechada, sem desviar os olhos, limitava-se a observar o andamento dos ponteiros. Com os sentimentos protegidos por finas membranas no vazio do seu coração, foi envelhecendo, hora após hora.”

“Vivemos numa época dominada pela apatia generalizada e, ao mesmo tempo, estamos rodeados de uma quantidade absurda de informação sobre os outros. Basta alguém querer para conseguir o que se propõe. No entanto, pouco ou nada sabemos, efetivamente, acerca das pessoas.”

“- Seminário criativo de negócios?
– A designação é recente, mas, no fundo, oferecem cursos de personal coaching – afirmou Sara. – Por outras palavras, um curso rápido de desenvolvimento pessoal com lavagem ao cérebro incluída, destinada a formar os típicos guerreiros empresariais. Em vez da Sagrada Escritura, utilizam um manual, e em vez da Iluminação e do Paraíso recebem a promessa de promoção e de salários mais elevados. Trata-se de uma nova crença numa era marcada pelo pragmatismo. Não tem nenhum elemento transcendental próprio das religiões, e é tudo muito concreto, contabilizado ao pormenor. Tudo muito transparente e fácil de aprender. E olha que não poucos os que encontram encorajamento positivo nestes cursos! Basicamente implantam no cérebro das pessoas um sistema de pensamento oportunista.”

“Nesse instante, Tsukuru soube. No mais profundo do seu ser, compreendeu por fim. O que une o coração das pessoas não é apenas a harmonia. Os corações humanos unem-se através dos desgostos sofridos. Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor, não existe perdão sem derramamento de sangue, não existe aceitação sem a passagem pelo inevitável sentimento de perda. É aqui que se encontram as raízes verdadeira harmonia.”

 

 

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3 pensamentos sobre ““A peregrinação do rapaz sem cor” de Haruki Murakami

  1. a essência “Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor (…)” já o terminei faz dias e ainda penso neste Tsukuru Tasaki, um fazedor de coisas, aparentemente, sem cor, mas de um certa transparência reparadora… a ver se escrevo sobre ele 😉

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