O retorno, de Dulce Maria Cardoso

o retornoSinceramente até considero irrelevante e quase insultuoso dizer que gostei deste livro. Não gostei. Não gostei do conteúdo. Não gostei do nó na garganta que me acompanhou ao longo desta leitura. Pela primeira vez ponderei parar de ler um livro pela simples razão de que a leitura me estava a incomodar. Em vez disso optei por ler compulsivamente para ver se o incómodo se atenuava. Não aconteceu. Acho que cada vez que olhar para este livro vou sentir vergonha e orgulho em proporções quase iguais. Porque este livro é mais que uma simples história, tem e terá (digo eu) um estatuto de documento. O retorno das colónias contado magistralmente pela Dulce Maria Cardoso (acredito que foi um livro que lhe saiu da alma) sob a voz de um menino de 15 anos que mistura dor, medo, esperança, desesperança e amor. Percebo porque tanta gente se sentiu tocada por este livro. É quase impossível que isso não aconteça. É quase impossível não sorrir e não chorar com o Rui. É quase impossível não sentir um murro no estômago a cada página. Escusado será dizer que recomendo esta leitura a todos.

Sinopse:

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.

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2 pensamentos sobre “O retorno, de Dulce Maria Cardoso

  1. Tenho curiosidade neste livro, precisamente pelo factor “documento”, e pelo que deve representar para tanta gente, de uma época que se calhar de certa forma ainda nos assombra. E também acho importante não ceder à “estética Facebook” – não se tem de gostar de tudo, também é importante absorvermos informação ou até obras de arte e cultura que não são agradáveis e cujo propósito não é esse sequer. Porque a arte e a escrita às vezes são incompatíveis com o entretenimento. Obrigado, Patrícia

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