“Crónica do pássaro de corda” de Haruki Murakami

Pássaro_corda

“Crónica do Pássaro de Corda” foi a minha quarta incursão pela obra de Haruki Murakami e, tal como em “Kafka à beira-mar”, ao terminar a leitura, fui invadida por um certo vazio de palavras, uma espécie de silêncio mental quebrado apenas por uma insignificante exclamação: Uau! Como é que este autor consegue criar romances tão inusitada e maravilhosamente intricados, tão perplexamente fantásticos e intrigantes? A riqueza narrativa deste livro presta-se, sem dúvida alguma, a uma miríade de interpretações de vários níveis: simbólico, antropológico, psicológico, etc. Quanto a mim, direi apenas que adorei os “nós nas ideias” que esta leitura gerou em mim. Alguns foram sendo progressivamente desatados à medida que a história se aproximava do seu final, outros permaneceram teimosamente firmes, mas tal não me incomodou de modo algum. O protagonista deste romance, ao contrário do que é dito na sinopse, é tudo menos “normal”. Desde logo porque resolveu despedir-se do emprego e anda vagamente à procura de outra ocupação, sem saber bem o que fazer. Numa sociedade que valoriza imensamente o trabalho e que dá primazia ao colectivo em detrimento do individual, não me parece que este seja um comportamento habitual. Além disso, Toru Okada mergulha de cabeça, sem pensar duas vezes, num alucinante percurso de exploração dos limites da realidade e da sua mente/consciência, enveredando por uma espécie de viagem quase xamânica, com o objectivo de reencontrar a mulher que ama. Através de um poço, símbolo tanto de mistérios e segredos como de fonte de conhecimento e portal de entrada para uma outra realidade, Toru tenta desesperadamente chegar a Kumiko. Pelo caminho cruza-se com um conjunto de personagens, quase todas verdadeiramente incomuns e extraordinárias, algumas das quais o auxiliarão a atingir o seu intuito. Entretecidas neste percurso tortuoso encontram-se várias outras questões muito pertinentes e persistentes ao longo de todos os tempos como a corrupção na política, a perda de valores éticos e de consciência social bem como o significado último da nossa existência e mortalidade. Além disso, evocam-se também memórias dolorosas da ocupação japonesa da Manchúria e do militarismo japonês da primeira metade do século XX.
Acabei a leitura deste livro com algumas interrogações e uma única certeza; este é um autor que me deslumbra e cuja obra continuarei a explorar.
 
Excertos:

“O ser humano é um verdadeiro poço de mistérios, pensei, bastam dez minutos de olhos fechados para contemplar aquela espantosa paleta de cinzentos.”

“Aos olhos da opinião pública, a coerência era um valor perfeitamente dispensável. O que as pessoas querem é assistir no pequeno écran a uma luta entre intelectuais que se digladiam; quanto mais vermelho o sangue que correr diante dos seus olhos, tanto melhor. Querem lá saber se a mesma pessoa diz uma coisa na segunda-feira e o contrário dois ou três dias depois…”

“ As leis, em última análise, existem para regular todos os fenómenos que se produzem sobre a face da Terra. O mundo no qual a luz é luz e a sombra é a sombra. Um mundo onde o yin é o yin e o yang é o yang. Um mundo onde “eu sou eu /Ele é ele/É Outono e anoitece”. O teu lugar não é aqui. Tu pertences a um mundo intermediário, um pouco mais acima ou um pouco mais abaixo do que o nosso. (…) Não se trata de ser melhor ou pior. A ideia, aqui, é de não resistir à corrente. Vem-se à tona quando se deve vir à tona e mergulha-se quando se deve mergulhar. Quando tiveres que subir, procura a torre mais alta e trepa por ela até ao topo. Quando tiveres de descer, procura o poço mais fundo e desce até ao fim. Quando não houver corrente, o melhor é não fazer nada. Se resistires à corrente, fica tudo seco. E se ficar tudo seco à tua volta, o mundo vê-se envolto em trevas.”Eu sou ele/Ele é eu/É Primavera e anoitece”. Que é como quem diz, quando renuncio a mim, existo.”

“Eu não sou mais do que um simples caminho por onde passa o homem que eu sou.”

“A verdade é que um ser humano não consegue viver sem o seu verdadeiro eu. É como a terra que pisamos. Sem um terreno firme, não podemos construir nada em cima.”

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2 pensamentos sobre ““Crónica do pássaro de corda” de Haruki Murakami

  1. Acho que só li um livro dele, “o elefante evapora-se” mas gostei bastante e também fiquei com vontade de continuar a explorar. Até porque me identifico muito com o universo literário (kafkiano… de uma forma japonesa:) A minha irmã tem (quase) todos… Obrigado, Renata, também pelos excertos elucidativos. Para quem tenha interesse, o *Norwegian Wood* – filme baseado no livro – está (ou estava) no Youtube, com legendas.

    • Planeio continuar a explorar aos poucos a obra de Murakami e “Norwegian Wood” e “O elefante evapora-se” estão na lista. Quero ler o livro antes de ver o filme porque normalmente este é muito melhor do que aquele. Fico contente por teres apreciado os excertos. 🙂

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