Deixem Falar As Pedras – David Machado

Valdemdeixemfalaraspedras_1300729477ar tem um diário. Um diário serve para se escrever livremente, sem filtros nem receios, porque não há público e, logo, não há censuras. E é isso que Valdemar faz, até ao dia em que, na qualidade de seu próprio público, começa a censurar-se a si mesmo, porque lhe parece que há coisas que não devem ser contadas.

Aquilo a que temos acesso ao abrir este livro é ao diário de Valdemar, já depois de revisto pelo seu autor/censor – o próprio Valdemar. O texto está, por isso, salpicado de grossos traços negros, que escondem as partes da narrativa que não devem ser narradas. Mesmo assim, o que resta é suficiente para nos fazer mergulhar nas várias histórias que daqui transbordam: a vida do próprio Valdemar, para começar, gordo e inadaptado, rebelde e violento, e ao mesmo tempo capaz de uma empatia enternecedora com o avô;  a vida da sua amiga Alice, anoréctica, complexada e promíscua; a vida do avô, absorvida através das histórias contadas por este, e constantemente desdobrada em versões mais e menos verdadeiras, cujos matizes vão das mentiras perfidamente inventadas pelos seus inimigos às ilusões criadas pelos efeitos de espelhos de uma memória já envelhecida; a vida do pai, figura de autoridade falhada que cai em trafulhices básicas na Internet e nunca consegue ganhar o respeito do filho; a vida da mãe, jornalista sempre ausente mas cuja presença nunca deixa de ser desejada. Tudo isto para quê? Para se construir uma soberba tese acerca do que é uma história e, mais importante ainda, do que é a verdade.

Uma história não existe se não houver palavras para contá-la. E a verdade não é um valor absoluto, pois até o facto mais simples pode gerar diferentes verdades, uma para cada pessoa que o tenha vivido. Estas duas conclusões são.nos gritadas recorrentemente ao longo do livro, e sobejamente ilustradas com  exemplos concretos. E acabamos por ser confrontados com a questão de um milhão de dólares: até onde valerá a pena lutar para contar uma história? Para fazer valer uma verdade sobre as outras? Onde se traça a linha entre o que deve ser contado e o que não deve?

Mas não é tudo. Para mim, existe ainda uma outra dimensão nesta obra, não menos importante e igualmente bela: esta é uma história sobre histórias, sobre verdades e mentiras, mas também sobre a liberdade. A busca constante dos homens (pelo menos de alguns homens) pela verdade não será, no fundo, apenas uma busca pela liberdade? Espera-se que a verdade liberte. Espera-se que, depois de tudo narrado e esclarecido, acabem as dores, as intrigas, os ressentimentos. E se assim não for? E se a preocupação constante em repor a verdade se tornar mais uma prisão, mais um obstáculo à liberdade? E se, uma vez feita a última narrativa, se verificar que o que se ganhou foi apenas, em vez da felicidade suprema, a triste consciência do tempo que se perdeu nessa luta? Terá valido a pena? E se não tiver valido, onde se deveria ter parado?

Tal como o Índice Médio de Felicidade, também este livro faz pensar. E faz continuar a pensar depois de acabada a viagem através das suas páginas. Viagem essa que, note-se, é agradável e divertida, porque David Machado escreve com ligeireza e humor, e com uma mestria inegável. Mas, enquanto nos distrai e diverte, vai lançando umas achas para a fogueira do debate… e elas lá ficam, incandescentes, à espera que as deixemos arder.

Excertos:

“O que é que pode haver melhor do que uma cicatriz para rematar uma história?” (pág. 69).

“Só quem viveu os acontecimentos pode falar deles; todos os outros, por muito que aquilo que digam se aproxime da verdade, teriam feito melhor em calar-se.” (pág. 94).

“Eu era só um puto mas falava em pendurar toda a gente no colégio de cabeça para baixo e queria distância dos putos que andavam pelos corredores com um sorriso do tamanho de uma laranja, como se a vida fosse um lugar que não dá alternativa a não ser a felicidade. Eu não sabia muita coisa mas pelo menos sabia que não podia faciliar, que não podia baixar a cabeça. Rir estava fora de questão. Eu estava de vigia, atento. E mais ninguém estava atento. A Alice gostava disso.”

(…)

“O meu avô era uma pedra. Depois de tanto tempo à espera, apenas vendo o mundo passar, o meu avô transformou-se numa pedra, incapaz de se mover, incapaz de falar.” (pág. 230).

“A mentira não é o pior inimigo da verdade. A dúvida é que é. É a incerteza que arruína tudo, criando buracos nos quais existe espaço para todas as verdades, possíveis e aparentes. É esta a maldição da racional mente humana e da sua dita imaginação pródiga, capaz de promover todas as possibilidades para justificar um acontecimento, mesmo os maiores devaneios.” (pág. 305).

Dom Quixote, 2011

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