Terra de Milagres de João Felgar

Mal acabei de ler este livro tive a exacta noção que por mais que eu escrevesse não conseguiria descrever completamente o quanto eu gostei dele! Aliás, gostar é pouco! Confesso que fui apanhada de surpresa! Não esperava apaixonar-me tão rapidamente pela história nem pela escrita do autor.

Começa assim: “A fertilidade das mulheres é um caminho de sangue e dor. – disse Júlia, com uma fileira de alfinetes na boca.- Enquanto os rapazes jogam futebol e andam aos nínhos, estamos nós tolhidas com as dores da história sem sabermos bem para que serve aquilo. A perda da virgindade é a paga com as dores de uma punição, de preferência no dia mais bonito da nossa vida! E, por fim, a maternidade, em que damos uivos de lobas, com dores de se ver lume. Tudo isto sempre com sangue pelo meio.”

Não costumo colocar aqui exertos dos livros que leio porque, para ser sincera, sou um pouco preguiçosa, mas não consegui deixar transcrever este primeiro pagrágrafo de Júlia, de tal forma ele me cativou à primeira! Júlia é uma das personagens principais deste livro e uma das mais bem conseguidas. Costureira sem estudos, que devora as Selecções do Readers Digest, para daí assimilar e decorar vários ensinamentos, é uma mulher sábia nos conselhos que transmite às suas filhas e a todas as aprendizas do ofício que lhe passam pelas mãos. Sem escolha nem poder de decisão, num Portugal de há nem tantos anos assim, Júlia viu-se a braços com um casamento com o cunhado, depois da morte da sua irmã, e com uma sobrinha de poucos meses. Aprendeu a tirar o melhor partido que a vida lhe deu mas… A vida dela foi um rol de surpresas tanto como as páginas desta obra! Tornei-me instantaneamente “amiga” de Júlia, tal as gargalhadas interiores que dei com ela e por causa dela.

Para além desta personagem muito sui generis, cheia de uma ironia que adorei, existem outras que foram tão bem aprofundadas como Júlia, a saber: Leta e Laidinha, suas filhas; Luzia, sua neta e futura santinha da aldeia; Agripina, dona de uma pensão e dada a intimidades frequentes e passageiras com os seus hóspedes; Gualter, com a sua figura delicada, carácter extravagante e …e tantos outras que povoaram este meu fim de semana e o encheram de surpresas, suspense, risos mas também murros no estômago. Sim, porque a meio do livro, quando pensava que tudo fluiria calmamente, há uma reviravolta que me virou por completo por dentro e que vem dar um novo rumo à história. Para não desvendar o mistério, porque não é isso o pretendido, digo só que há “luas-de-mel” diferentes das sonhadas!

Caracterizando espectacularmente o ambiente de uma pequena aldeia perdida e fechada em si mesmo quer em termos de mentalidades quer geograficamente, João Felgar espantou-me com a sua escrita cuidada, irrepreensível mas ao mesmo tempo fácil de ler, irónica q.b. Escolhida a dedo mas fluída. Um retrato muito bem conseguido de uma época não tão longe assim e uma crítica implícita ao tema que o título deixa transparecer, os milagres. Com saltos no tempo que servem para melhor nos situarmos e caracterizar as personagens, sem que com eles nos percamos ou diminuamos o interesse pela história tão peculiar.

Acredito ter lido o meu romance de 2014. Nota máxima. Espero que não tarde muito a conhecer uma nova obra deste autor. Quantos livros estarão na gaveta do escritor? Sim, porque não acredito que haja alguém que, logo numa primeira vez, consiga sentar-se na secretária e escrever algo assim… Este é um livro que recomendo a todos: aos que gostam de romances mais leves e divertidos mas também aos que exigem um pouco mais. Creio que todos ficarão muito satisfeitos e agradados. Como eu. Espero sinceramente que este livro não passe despercebido!

Estrelas: 6*

Sinopse

 

Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.

Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.

A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.

Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.

 

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