“Ressurgir” de Margaret Atwood

 

ressurgir

 

Antes de mais, devo dizer que Margaret Atwood é uma das minhas escritoras predilectas e, por isso, ao iniciar a leitura de um dos seus livros, sinto-me desde logo predisposta a gostar da história que me vai ser contada. Talvez isto constitua um factor de enviesamento importante, levando-me assim a olhar o seu trabalho de modo mais favorável e menos imparcial do que seria desejável para emitir uma opinião sobre este romance. Posto isto, aqui ficam as minhas impressões pessoalíssimas sobre este livro:

“Ressurgir” foi publicado originalmente em 1972 e aborda alguns dos temas, recorrentes na obra da autora, que eram, à época, grandes questões emergentes na sociedade ocidental e que permanecem, em larga medida, ainda hoje actuais: o estatuto das mulheres, as mudanças nas relações entre os sexos catalisadas pela revolução sexual dos anos 1960, a questão ecológica relacionada com a exploração excessiva e/ou inadequada dos recursos naturais e os efeitos da desertificação das zonas rurais mais remotas. De leitura absolutamente compulsiva, este romance agarra-nos desde a primeira linha e não nos dá tréguas; em vez de respostas ou soluções oferece-nos mais perguntas e faz-nos reflectir sobre as fundações em que assenta esta nossa sociedade, dita de consumo. Serão as mudanças sociais iniciadas na década de 60 do século XX verdadeiras libertações ou apenas mistificações para encobrir o facto de tudo permanecer essencialmente na mesma? Isto é, houve uma alteração genuína e real ou apenas uma alteração superficial de circunstâncias, permitindo assim a continuação do primado da ganância, do desejo desmedido de poder, do desrespeito pelos seres humanos, homens ou mulheres e da exploração descontrolada dos recursos naturais com a consequente devastação de tantos ecossistemas preciosos? Não continuamos nós a viver numa era de objectificação de tudo e todos passível de justificar qualquer acto de violência quer contra os nossos semelhantes, quer contra a própria Terra? Continuamos ou não prisioneiros das nossas fraquezas e dos nossos medos, desejando e temendo amar e ser amados? Em que medida a linguagem verbal, um exclusivo da nossa espécie, nos proporciona um falso sentido de superioridade, afastando-nos assim das nossas origens e criando a ilusão de sermos distintos e melhores do que os restantes seres com os quais partilhamos a existência neste planeta? E poderá uma hábil manipulação das palavras justificar toda e qualquer acção, tranquilizando as consciências dos que olham em volta e apenas vêem algo a explorar em proveito próprio? Seríamos nós mais humanos se prescindíssemos das palavras? E se o fizermos, mesmo que seja durante um curtíssimo momento, será que conseguiremos por fim aceder às profundidades da nossa essência e atingir assim o conhecimento perfeito?

A aparente facilidade com que a autora esculpe as frases e a fluidez da sua narrativa são verdadeiramente arrepiantes e impressionantes; a sua escrita é soberba, acutilantemente inteligente e de uma elegância mordaz extraordinária. O desenvolvimento da história é surpreendente e a força e lucidez da sua protagonista, que se perde para se poder encontrar, também.Sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano e que aumentou ainda mais a grande admiração que tenho por esta autora fantástica.

Excertos:

“Eles não têm o direito de envelhecer. Invejo as pessoas cujos pais morreram novos; torna-se mais fácil recordá-los, permanecem sem mudanças. Eu tinha a certeza de que os meus, pelo menos, não iriam mudar, podia deixá-los e regressar muito depois, que estariam na mesma. Eu via-os como se eles vivessem num outro tempo, como se vivessem a sua vida por detrás de uma parede tão transparente como gelatina, mamutes congelados num glaciar. Tudo o que precisaria de fazer era regressar quando estivesse preparada, mas ia adiando esse passo, haveria demasiadas explicações a dar.”

“Amor sem medo, sexo sem risco, eis o que eles desejavam que fosse verdade; e quase o alcançaram, pensei, quase conseguiram mas tal como nos truques de magia ou os furtos, meio sucesso é o mesmo que fracasso, e agora voltámos às outras medidas. Amor é tomar precauções. (…) Antigamente o sexo cheirava a luvas de borracha, e agora volta a cheirar a isso, é o adeus às práticas embalagens de plástico verde em forma de lua, para que a mulher possa fingir que ainda é natural, cíclica, em vez de uma slot machine química. (…) Depois do primeiro, não quis voltar a ter filhos, é demasiado sofrimento para nada, somos fechadas num hospital, rapam-nos os pêlos e atam-nos as mãos e não nos deixam ver, não querem que compreendamos nada, querem-nos fazer acreditar que o poder é deles, não nosso. Espetam-nos agulhas para que não ouçamos nada, é como se fôssemos um porco morto, com as pernas para cima, pousadas numa estrutura de metal, e eles debruçam-se sobre nós, técnicos, mecânicos, carniceiros, estudantes desajeitados ou que se riem em voz baixa enquanto treinam no nosso corpo, tiram o bébé com um garfo, como quem extrai picles de um frasco. No final enchem-nos as veias de plástico vermelho, eu vi-o a correr pelo tubo. Não permito que voltem a fazer-me tais coisas.”

“Salvar o mundo, eis o que toda a gente deseja; os homens pensam que o podem fazer com armas, e as mulheres com o seu corpo, o amor conquista tudo, os conquistadores amam tudo, miragens criadas por meio de palavras.”

“Lentamente regresso pelo trilho. Algo aconteceu aos meus olhos, os meus pés estão libertos, alternam, vários centímetros acima do chão. Sou límpida como gelo, transparente, os meus ossos e a criança que trago dentro vêem-se através das verdes tramas da minha carne, as costelas são sombras, os músculos gelatina, também as árvores estão assim, estremecem, os seus cernes brilham sob a madeira e a casca. A floresta irrompe para cima, gigantesca, tal como era antes de eles a terem cortado, colunas de luz congelada; os pedregulhos flutuam, fundem-se, tudo é feito de água, mesmo as rochas. Numa das línguas não existem nomes, apenas verbos sustidos por um largo momento.

Os animais dispensam qualquer idioma, para quê falar quando se é uma palavra?

Reclino-me contra uma árvore, sou uma árvore reclinada.

Saio de novo para a luz do dia e encolho-me, a cabeça contra o solo.

Não sou um animal nem uma árvore, sou a coisa sobre a qual as árvores e os animais se movem e crescem, sou um lugar.”

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3 pensamentos sobre ““Ressurgir” de Margaret Atwood

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