Diário de um Quiosque – Pedro Xavier Silva

diariodeumquiosqueHá vários motivos que fazem com que um livro leve muito tempo a ser lido. Mas podem resumir-se a dois: ser uma seca monumental ou porque o leitor não quer que o livro termine.

“Diário de um Quiosque” lê-se num dia. Eu demorei quase um mês. Estive literalmente a “fazer render”. Demorei pela razão certa portanto.

Sendo um livro de pequenas crónicas pode ler-se em qualquer lugar. Li vários livros durante a leitura das aventuras do quiosque, ri bastante, foi uma viagem muito boa não só a um quiosque que até conheço, mas também à minha cidade, Figueira da Foz.

Os livros fazem-nos criar cenários. Aqui a coisa funcionou ao contrário. Não consigo imaginar um cenário que sei que existe, e ainda por cima conheço. Então foi mais uma sucessão de acontecimentos que consegui imaginar perfeitamente, pelo menos a nível do espaço. Foi muito fácil imaginar o taxista a entrar pela porta de trás do quiosque, pela localização da praça dos táxis. Por outro lado, saber que o quiosque tem um porão, foi uma completa surpresa.

Mas tudo isto é secundário perante o desfilar dos acontecimentos. Escrito com um sentido de humor que apreciei, por não ser demasiado fácil, com uma ironia subtil, mas na medida certa, este diário é um milagre para os dias que custam a passar e um presente para todos os outros.

Desconfio sempre dos livros da Chiado Editora. Se calhar ando a perder grandes leituras por causa deste preconceito, mas a ideia que tenho é de que são livros sem qualidade, por grande parte das vezes se tratarem de edições de autor, com revisões pouco cuidadas, ou sem revisão sequer. Daí me ter surpreendido com as poucas gralhas que encontrei neste livro. São poucas e pouco graves. A revisão foi feita pelo autor. Perante isto só posso dizer: Bom trabalho Pedro!

E escrita é simples e objectiva, sem floreados nem invenções. Agrada-me. Não há cá pretensões. É humor de qualidade, bem conseguido e, acima de tudo, bem apanhado em situações do dia-a-dia. E convenhamos que situações caricatas não devem faltar neste tipo de negócio, foi inteligente a divulgação no blogue e no facebook, e agora no melhor veículo de leitura jamais inventado: o livro.

Este diário começa em 2007 e termina em 2013. Seis anos em que se nota um apuramento do sentido crítico, melhoria do sentido de humor e refinamento da ironia. Esta evolução é francamente notória a partir do meio do livro. Um percurso de aperfeiçoamento e aprendizagem de um escritor que penso estar em forma para continuar a analisar e a divagar, de modo peculiar, acerca do quotidiano.

Sinopse

“Do interior da grandeza dos seus escassos 6 metros quadrados, há um quiosque que não se limita a vender jornais e revistas. Soltando-se do rótulo de típico elemento urbanístico, ultrapassando o seu complexo de inferioridade, conquistando vida própria e adquirindo a personalidade que só os pequenos-grandes quiosques ousam almejar, há um quiosque que retrata em palavras o que vive à sua volta. Um quiosque pequeno, é certo, mas com sentimentos. A provar o que todos sabiam mas que ninguém ousara ainda afirmar: os quiosques também têm diários. “Por vezes sinto-me obrigado a desconfiar que tudo isto não passa de um super big brother, uma mega produção de apanhados que irá para o ar dentro em breve. De facto, as peças começam a encaixar. A forma entusiástica como literalmente me empurraram para o negócio, numa altura em que duvidava da sua viabilidade, mas que mesmo assim me fizeram avançar. O senhor que na falta do Expresso, levou o Jornal do Sexo. A velhinha que à força me queria comprar um saco de milho. O puto que se barricou dentro do quiosque, numa tentativa desesperada e fracassada de escapar a uns tabefes do pai. O dia em que a M., nos poucos minutos que me substituiu, despachou toda a remessa do jornal Ocasião, pensando tratar-se de um jornal de anúncios gratuito. O contingente da EDP que procurava luz e descobriu um porão. Enfim, há aqui material mais que suficiente para um pack de 12 episódios de apanhados, em que o apanhado sou eu. Agora é tarde. Assim de repente, relembro as vezes em que levei o dedo ao nariz (por vezes dois dedos!), em que anulei comichões abaixo da cintura, em que persegui rabos com o olhar. Pergunto ao meu médico se tudo isto não passa da minha imaginação. Não diz que sim nem que não. Para ele, trata-se de um mecanismo de defesa, próprio das pessoas super inteligentes.”

Chiado Editora, 2014

Anúncios

2 pensamentos sobre “Diário de um Quiosque – Pedro Xavier Silva

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s