“O intrínseco de Manolo” de João Rebocho Pais

O Intrínseco de Manolo

Um dado livro pode conter inúmeras leituras. Estas, provavelmente, serão tantas quanto os seus leitores e o que se segue é, apenas e só, mais um olhar sobre o romance de estreia de João Rebocho Pais. Numa primeira abordagem, o que sobressai em “O intrínseco de Manolo” é o seu extrínseco, ou seja, o seu carácter de sátira social arguta, impiedosa e muito bem humorada, por vezes até desbragada, e sem contemporizações de qualquer espécie. E assim se vê enredado o leitor numa narrativa muito bem construída, dotada de um ritmo incrível e capaz de captar rápida e irremediavelmente a sua atenção. Contudo, o meu aspecto favorito de “O intrínseco de Manolo” é precisamente o que considerei ser o intrínseco do livro, a sua essência: a jornada de autodescoberta do protagonista, desencadeada pela sua proximidade com uma azinheira. Através das suas raízes as árvores estão firmemente ligadas à terra, ao aspecto mais palpável e físico da existência. Por outro lado, os ramos e as folhas erguem-se e “tocam” o céu, o território por excelência dos sonhos e da imaginação. Assim, ao estabelecer uma ligação especial com a azinheira, Manolo abre as portas para o seu crescimento interior, para a concretização das suas aspirações mais íntimas, sem nunca deixar de permanecer enraizado no afecto e no respeito pelas suas origens. Isso permite-lhe também ser capaz de distinguir o acessório do essencial bem como ser fiel à sua natureza de homem simples e de coração grande e generoso. Assim, foi através do reconhecimento do sua verdadeira essência que Manolo pôde encontrar, finalmente, o seu lugar no Mundo.
Acompanhar o quotidiano de Manolo e dos seus conterrâneos foi muito divertido, por vezes algo desconcertante ou até perturbador mas sempre bastante interessante e amiúde ternurento. Além disso, senti-me como se estivesse algures, talvez debaixo de uma azinheira, a ouvir um exímio contador de histórias narrar as vidas dos habitantes de Cousa Vã. E isso é sempre muito bom!

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã – vizinha da espanhola Ciudad del Sol – o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas – e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras – e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia – pois é – remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos – onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história – e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

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