Barba Ensopada de Sangue de Daniel Galera

Screen Shot 2014-08-10 at 10.31.03

barba ensopada de sangue

Só o título já é espectacular – Barba Ensopada de Sangue – promete vingança, tareia e um bocado de loucura e disso há bastante. Esta capa é bastante feiosa (a da edição brasileira é muito melhor), parece o Pedrito de Portugal, mas não há touros nem tourada neste livro o que é muito positivo.

Confesso que levei umas quantas páginas a entrar na história por estar em brasileiro e não estar habituada a ler nesta língua e também porque, primeiro  se fala num tio, depois é um avô que está no centro da trama.  Mas ainda bem que persisti, até porque o título só se explica quase no fim do livro. A história do tio também, pelo menos para mim, só mesmo na última meia dúzia de páginas é que tive aquele momento “ah! Então é isso!!” é uma história circular, o fim explica o início.

Há um jovem, de quem nunca sabemos o nome, atleta e professor de educação física que, após a morte do pai, vai morar para Garopaba, terra onde supostamente o seu avô foi assassinado, para se isolar da família, da namorada que o trocou pelo irmão mais velho e também para saber se a história do avô é verdadeira. Mas nada é assim tão fácil como mudares de terra e deixares tudo para trás pensando que começas de novo e a tua vida muda. A tua vida muda, é verdade, mas tu continuas a ser a mesma pessoa mesmo que deixes crescer a barba.

Para além de tudo mais o nosso protagonista tem Prosopagnosia, não reconhece rostos incluindo o próprio. Conseguem imaginar?  O esforço diário e contínuo para as coisas mais triviais, saber com que colega do trabalho estás a falar, que vizinho vai no elevador, encontrares o teu amigo/a na porta do cinema… E no entanto, gosta de conhecer pessoas novas e aprender a saber quem é quem, não pela cara, mas pela forma de ser. Dália a garçonete que trabalha na pizzaria, Pablo o filho dela, Bonobo o budista mais estranho de todos os tempos, os alunos a quem dá aulas de natação, Greice a veterinária, as alunas de corrida,  Jasmim …

O último encontro que tem com o pai é brutal e o relacionamento com Beta, a cachorra que herdou do pai, é comovedor. Já a mãe é aquela pessoa que lhe pede dinheiro emprestado para pagar a cirurgia plástica que fez à cara, irónico não?

Achei este livro formidável, no fim ficamos a saber a história do avô e no início ficamos a saber a história do protagonista sem nome.

O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares. O que imaginamos que deve ser bom, o que nos disseram que é bom, o que fizeram em nós e gostamos, o que é involuntário, o que é nosso jeito de agradar e ponto. 

Vai lembrar de tudo.”

“As noites frias torturam o verão com uma morte lenta.”

“O Bonobo se aproxima da carcaça do Fusca e começa a forçar a maçaneta.

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

“A embreagem do Fusca não retorna sozinha à posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tanto de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.”

“Posso te dar uma carona no Tétano.

Nah, eu me viro pra voltar.

Faço questão. Já mato minha parcela de carma do dia. Minha dívida é grande, nadador. Tem cheque especial, cartão cobrindo cartão, financeira, dinheiro na cueca, tudo. Parcelei em muitas vidas. Fora que a estrada fica linda essa hora.”

“Já não lembra do rosto dela mas sabe que a achará bela de novo amanhã. Lembra dos ombros abertos, o encaixe da cintura nos quadris, a postura empertigada na cadeira. Nunca viu alguém sentar de maneira tão bonita. Está apaixonado pela postura dela.”

“Vi ela no máximo umas três vezes por aí, não deve se misturar muito. Mas é uma rainha. Engraçado tu perguntar dela porque me passou pela cabeça que vocês dois tinham a ver. Ela me fez pensar em ti.

Ela me faz pensar em mim também.

Vou fingir que não ouvi isso.

Desculpa.

Tá amando, nadador?

Talvez.

Pobre homem. Estarei aqui quando precisar.”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s