O intrínseco de manolo – João Rebocho Pais

O Intrínseco de ManoloCada um de nós chama à leitura o seu proprio intrínseco. A sua vivência, as suas memórias e a sua forma de olhar o mundo. Todos o sabemos.

Várias foram as opiniões que escutei e li sobre este livro, diferentes visões sobre o mesmo. E, pese embora me reveja em alguns dos aspectos nelas referidos, também a minha leitura é diferente.

“O intrínseco de manolo” é, para mim, um livro sobre a perda e a vida, a força que Manolo encontra dentro de si para sobreviver ao mundo de aparências que o rodeia, à dureza da morte, tornando-se num hino à vida. Vida feita de passado e memórias que sustêm o presente, sem as quais o hoje e o amanhã não fazem sentido.

Uma história sobre a resposta à mesquinhez alheia, ao lodo onde outros se afundam, sobre nobreza de carácter e a estranheza que causa. Uma lição sobre a relativização da opinião dos outros e a sua real importância, à qual poderia aplicar uma das minhas frases preferidas – a ignorância é a mãe de todos os males.

Mas também, uma história que, centrando-se na raia alentejana, inesperadamente, nos faz olhar Lisboa, a sua beleza, a sua história e as suas gentes, como olhos novos, sacudindo-nos e despertando o nosso olhar e atenção para a cidade que nos envolve e que já não vemos.

E, ainda, uma história sobre os livros e o seu encantamento e a forma como vivemos através deles e como eles nos ensinam a viver.

Gostei deste livro onde a beleza e sonoridade das palavras consegue suplantar a forma desabrida com que algumas descrições e situações são narradas. Não totalmente do meu agrado, porém, é o papel interventivo, activo, do narrador e a forma como se imiscui na história. Um narrador que nos interrompe e interpela, chamando-nos, até, enquanto leitores, guiando a nossa leitura.

Um livro de um autor a acompanhar, cujo Sebastião lerei em breve, inserido numa nova corrente de escrita portuguesa que tem sido muito bom descobrir. Escrita lusa com futuro!

 

Excertos

“Ali sentada, ao cimo da Avenida da Liberdade, entregue à brisa que atenuava o cair da noite, Maria percorria sem descanso as almas e vidas que adivinhava no rosto de todos os que subiam e desciam a avenida. Sempre tivera qualquer coisa que a ajudara a entender o intrínseco do mundo das coisas e das coisas do mundo, fossem gente ou animais, fossem do género terreno ou divino. (…)” (p.54)

“(…) Do pouco ou nada que se conversava por ali, a coisa funcionava mais em monólogos trocados sem lógica ou razão, o mistério sobre a viagem de Manolo trazia preocupada aquela gente, agastava-se em dobro, tão pouco tempo era decorrido desde a partida da sua mulher. Não que alguma vez lhe tivessem tribuído particular importância, não que se esquecessem de o brindar com eternas certezas e teorias acerca da sua honra, e no entanto a verdade era que as suas ausências recentes começavam a ganhar contornos de assunto da terra, pois não se lhe punha a vista em cima, e coisa assim tinha de ser sabida e falada. Além de que, por muito que escondessem, todos a ele sabiam recorrer em momentos de maiores complicações. (…)
Isto para falar dos mais chegados, dos mais fingidos, que não deixavam passar dia na tasca ou na rua, em casa ou no jardim, sem comentar o destino de Manolo, traçando-lhe invariavelmente um triste fim.” (p.155/156)

“E compreendeu Manolo de vez as histórias mágicas e de fantasia que aprendera nos livros de crianças, onde as cercas eram puladas e as corridas não tinham fim, entendeu porque aprendera a nadar, porque para sempre se lembraria das mãos do avô, decifrou os sermões do seu pai que o puxavam para dentro da estrada da vida. Lembrou todas as mulheres que eram suas e que não deixara no passado, que dormiam dentro de si. Lhe ajeitavam o sorriso e aparavam as lágrimas.
E sorriu com vontade pela primeira vez em tanto tempo, deixou entrar o ar por todas as portas, gritou de alívio e felicidade.” (p.163)

 

Sinopse

«Na aldeia alentejana de Cousa Vã – vizinha da espanhola Ciudad del Sol – o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas – e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras – e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias, Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia – pois é – remetente espanhol…
No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos – onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história – e da de Cousa Vã.
Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.»

 

Teorema, 2012

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