“Todos os dias são meus” de Ana Saragoça

 

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A leitura de “Todos os dias são meus” estava, para mim, associada à sombra algo inquietante de expectativas muito elevadas. Daqui resultam normalmente dois desfechos antagónicos; ou se leva com um frustrante balde de água glacial na cara ou se fica deslumbrado perante o talento do autor e perante a história que nos é oferecida. Neste caso verificou-se, sem qualquer resquício de dúvida, a segunda hipótese. Ufa! Agora já se respira mais fundo e o ar que preenche os pulmões traz consigo uma leveza bem como uma grande alegria de ter satisfeito a compulsão para a leitura com mais um livro memorável e cativante. Um pequenino mas gigantesco livro, um verdadeiro livro-ostra, pois a sua capa, um grande exemplo do cúmulo da discrição, importante em muitas situações na vida mas não no que aos livros diz respeito, não permite antever a pérola nele contida. Lida num ápice, esta pérola, não branca nem totalmente negra mas sim marmoreada de branco e negro, dá-nos o privilégio de rirmos e de nos emocionarmos com aquela maneira de ser que é tão portuguesa, tão obviamente nossa. Este romance encerra em si múltiplas leituras e diversos ângulos que nos remetem para a sociedade portuguesa, actual e não só, e fá-lo quase sempre no tom ligeiro de quem brinca com o leitor. Absolutamente brilhante e original é o modo como a história nos é contada: na primeira pessoa, apenas com acesso às palavras ditas por um dos interlocutores de um dado diálogo, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o que diria o outro participante. A excepção são os capítulos intitulados “Razão”, palavra susceptível a várias interpretações e genialmente escolhida.
Ana Saragoça faz parte de uma nova geração de escritores portugueses que, na minha humilde opinião de mera leitora, está a revitalizar de modo brilhante a nossa tradição literária e que merecem ser lidos e acarinhados pelo público. E, a propósito disto, relembro aqui outro enorme talento das nossas letras, Afonso Cruz:
“Encheremos o mundo de coisas preciosas, serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais.” in “Para onde vão os guarda-chuvas”
As coisas preciosas estão aí, á nossa volta e á nossa espera. Quem tem olhos para ver, veja e deixe-se deslumbrar.

Excertos:
“ Da Polícia? Se é por causa do cão, fiquem sabendo que a culpa não é minha. Então, moro num quinto andar e o cão enjoa no elevador? Deito fora o bicho? As pessoas não têm compreensão nenhuma. Pois eu desço com o bicho, pelas escadas não posso ir, que não tenho pernas para isso, já bem basta descer ao andar de baixo, desço com o bicho no elevador, ele vomita, quando chego lá baixo tenho de esperar que ele acabe o serviço para voltar para cima e ir buscar água e esfregona para limpar aquilo não é? Que culpa é que eu tenho se eles chamam sempre o elevador enquanto eu ainda estou na rua?”

“ Faço hoje quarenta anos.
Nasci há quarenta anos, filha de um homem sem nome e de uma menina-mulher. Nunca quis saber estes pormenores, limitei-me a tropeçar neles e a arrumá-los no fundo da minha gaveta do não-quero-saber.”

“ Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte.”

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