Saber Perder – David Trueba

saberperderA fórmula é simples e, talvez por isso, resulta muito bem. “Saber Perder” é o segundo livro que leio de David Trueba. “Aberto toda a noite” teve um impacto diferente em mim, talvez por ter mais detalhes rocambolescos e personagens mais peculiares. Em todo o caso “Saber Perder” é um excelente livro, que ganha pontos pela simplicidade de descrever a vida com que qualquer um de nós se poderá identificar. Enfim, mais ou menos, em algumas situações o autor já revela o gosto pelo insólito que veio a apurar com “Aberto toda a noite”:

Novamente uma família. Menos numerosa agora. Pai, filho e neta são os personagens ao redor de quem toda a acção se vai desenvolvendo. O seu dia-a-dia e forma de enfrentar os desaires. A morte iminente da avó e a necessidade de escape para o avô, que desenvolve um delírio por prostitutas que o leva, em segredo, ao endividamento extremo. O namoro da filha adolescente e a falta de acompanhamento dos pais, divorciados, e cada um preocupado com o seu próprio umbigo. O percurso do pai, arruinado e desempregado, frustrado por ter sido abandonado pela mulher, sem saber lidar com uma filha adolescente, com a doença terminal da mãe, e com a vida dupla do pai. Um cobarde que se deixou arruinar pelo sócio e que, levado pela vingança, mas principalmente pelo descontrolo emocional, comete um acto desesperado de homicídio.

Por vezes exagerado mas bastante realista. Digno de nota pela forma como comove o leitor e o leva a identificar-se com sentimentos e situações que, apesar dos exageros, reconhece. Porque a natureza humana é comum, independentemente das excentricidades, há sempre algo de humanamente semelhante a todos nós no percurso de Leandro, Lorenzo e Sylvia.

A cegueira pelo futebol, esse desporto que na verdade é apenas uma desculpa para conflitos e discussões absurdas. A forma como as preferências clubísticas ditam a ascensão e queda dos jogadores, a pressão profissional sobre aqueles que não sabem fazer mais nada senão correr atrás de uma bola, um nível de inteligência baixo com os bolsos sempre cheios de notas.

O dia-a-dia com apontamentos requintados de quem sabe escrever. Manteve-me interessada ao longo de quase quinhentas páginas, sem que possa referir um pico de acção ou reviravolta. Uma leitura constante, sem surpresas, que curiosamente faz dessas características os seus pontos fortes.

Sinopse

“Sylvia cumpre dezasseis anos no dia em que começa este romance. Para celebrar o aniversário, organiza uma falsa festa que tem só um convidado. Horas depois, sofre um acidente que a levará a descobrir a complexa intensidade da vida adulta.
Lorenzo, pai de Sylvia, é um homem divorciado que tenta esconder o vazio que o abandono da mulher e o fracasso no trabalho deixaram na sua vida. O desencanto e a frustração levam-no a ultrapassar fronteiras que nunca julgara possíveis.
Ariel é um jovem jogador de futebol que deixa Buenos Aires para jogar numa equipa espanhola. Esmagado a princípio pelo frio anonimato da grande cidade, não tardará a ouvir o estádio entoar o seu nome em êxtase.
Leandro, velho reformado, está numa fase da vida em que assiste a mais enterros do que nascimentos. Mas descobre para sua surpresa que ainda está em idade de ser tocado por uma fascinante obsessão.”

Alfaguara, 2009

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