“Meio-irmão” de Lars Saabye Christensen

Meio-irmão

 

“Meio-irmão” é um romance agridoce. Nele encontramos, tal como noutros livros do autor, nomeadamente “Herman” e “Beatles”, um conjunto de personagens fortes e marcantes mas também vulneráveis nos seus medos e fraquezas. Ao longo da sua narrativa, inteligente e muito bem construída, acompanhamos os percursos dos vários membros de uma família invulgar: três gerações de mulheres que corajosamente se assumiram como mães solteiras, dois irmãos que escolhem viver desafiando uma sociedade que os marginaliza mas que, paradoxalmente, procuram o seu lugar nessa mesma ordem social e um pai, excêntrico na aparência e misterioso, portador de um carácter dúbio mas generoso. E, mais uma vez, fico maravilhosamente espantada perante a capacidade extraordinária de transmitir emoções muito intensas através de uma escrita simples, espartana e directa, sem cedências à lamechice gratuita , e ainda assim, com passagens de rara beleza. Esta forte carga emocional sente-se e intui-se nas linhas e entrelinhas de um livro algo exigente que requer a atenção plena do leitor a fim de revelar todas as dimensões da sua rica tapeçaria narrativa. Como todos os bons romances, esta obra de Christensen dá-nos um retrato precioso da nossa própria natureza; mostra-nos quer o absurdo dos acasos arbitrários e das nossas fragilidades intrínsecas, quer a força, a coragem, a capacidade para amar e para a permanente reinvenção que caracterizam a existência humana. O seu final abre uma porta para a esperança e para aceitação plena de si mesmo e do outro, deixando assim a cargo do leitor a tarefa de imaginar, a seu gosto, um desfecho definitivo para a saga emocionante da família Nielsen. Os únicos pontos negativos que encontrei foram a existência de algumas gralhas bem como de algumas frases “estranhas”, com uma construção menos correcta, mas que não prejudicam a compreensão da história.
Um grande exemplo da excelência da literatura nórdica, uma tradição literária que tem muito para oferecer para além dos policiais da moda.

Excertos:

“ São estes pensamentos que me causam medo e insónias, porque estamos pendurados num fio fino, e este fio fino foi fiado pela sombra da casualidade.”

“ A guerra prendeu o tempo e partiu-o em bocados, segundo por segundo, minuto por minuto. Guerra é presente. Guerra é da mão para a boca. Guerra é instantes e migalhas. Agora podem juntar o tempo, dar-lhe corda, fazê-lo andar.”

“E não é verdade que o tempo cura todas as feridas. O tempo congela as feridas em cicatrizes abertas.”

“ Sentei-me na cadeira, junto à janela, e pensei que era possível estar feliz, não era tão difícil, apenas não era costume e a felicidade era um ramo confuso de segurar.”

“- Temos algum livro que se chama Fome. – Fome? – O sorriso da mãe ficou surpreendido e voltou-se para a Bolleta, que já se havia levantado do sofá e se dirigia, devagar, para nós. – Esse romance, infelizmente queimámo-lo – disse ela. – Queimaram? – O escritor foi um tipo reles, durante a guerra, Barnum. Os livros não ficavam bem na estante. Por isso queimámos a sua obra no fogão. – Boletta teve de se apoiar no meu ombro. Éramos quase da mesma altura. Ela sussurrou fundo. – Mas agora lamento-o – disse ela. – Porque mesmo as pessoas reles podem escrever bem.”

“ O rosto não mente. A história do rosto é primitiva e nítida, da mesma forma que as feições da Velha eram marcadas pela saudade, mas também pela felicidade de carregar o bébé do saudoso, Boletta. Somos duplos. Somos metades. A história do rosto é uma tragédia e uma comédia.”

 

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