A Chama ao Vento – Carla M. Soares

achamaoventoQuero começar por dizer que gostei bastante deste livro. Li o livro anterior da Carla M. Soares, “Alma Rebelde”, e nota-se um amadurecimento na escrita, uma evolução de uma romance leve e de época para uma obra de fôlego que atravessa gerações.

Quis começar por deixar bem claro que gostei muito do livro e que o recomendo a todos, que o tema me agrada e que o espaço histórico-temporal é dos meu favoritos. Esta necessidade de clarificar o meu entusiasmo com o livro surge pela falta de entusiasmo pelo suporte em que tive de o ler. Mas a isto voltarei adiante.

Talvez por ter lido há pouco tempo “O Tempo entre as Costuras” de Maria Dueñas, não posso deixar de tecer um paralelismo entre os dois livros. Mais internacional do que “A Chama ao Vento”, por decorrer em vários países, mas ambos acabam por ter como palco essa Lisboa misteriosa dos anos quarenta, cheia de estrangeiros, ambiente de muito charme e conspirações.

Na verdade, “A Chama ao Vento” evolui em dois tempos. Se começa no tempo actual com Francisco, um homem que vive em constante conflito por desconhecer o passado da sua família, e apenas ter memórias vagas dos pais, pois viveu quase sempre com os avós, a segunda parte vai trazer respostas. E porque Francisco vive em conflito por desconhecer as razões da sua infância triste e solitária, conhecer a verdade será uma dura prova aos seus sentimentos, às suas inseguranças e medos.

Francisco descobre a sua verdadeira avó. Apesar de já ter morrido, a avó Carmo regressa pela mão de João Lopes, um amigo, que leva Francisco numa viagem a um passado desconhecido e revelador das origens das sombras que sempre sentiu pairarem sobre os avós e, consequentemente, sobre a sua infância. Se por um lado se surpreende com a história de vida de uma mulher fogosa, em oposição à avó apagada e triste que o educou, nada o prepararia para o embate de conhecer as suas verdadeiras origens. Não considero que esteja aqui a cometer a gafe de revelar demasiado, pois que considero o desenlace bastante previsível, na verdade sinto que o leitor deseja que assim seja. Eu suspeitei da forma como as coisas aconteceriam. Aconteceram. E acho que não poderia ser de outro modo. Casos há em que a confirmação da previsibilidade me satisfaz como leitora.

Recomendo bastante esta leitura. Entristece-me que não haja opção física para ler este livro. Nada tenho contra os e-books, tenho um e-reader e reconheço as vantagens mas não gosto que me limitem as escolhas. Mais do que gostar de ler gosto de livros, só isso justifica que adquira muitos mais do que os que terei capacidade de ler. Gosto do objecto, de o folhear, de o emprestar e partilhar (com leitores seleccionados claro está). A Coolbooks está aí e só vende e-books. E-books limitados a algumas plataformas e dispositivos, não pude ler “A Chama ao Vento” no meu Kobo, por exemplo. Tive de o ler no tablet, sujeitar-me a páginas e páginas (são umas centenas, não sei quantas porque a Coolbooks não usa páginas) de olhos cansados, mesmo reduzindo ao máximo o brilho do dispositivo.

E depois as (muitas) vezes que a coisa encrava e aparece uma mensagem do tipo “neste momento não é possível abrir o livro”. O quê? É isto o futuro? Não brinquem comigo. Nunca um livro se me recusou a ser aberto… e depois mais coisas, porque se calhar sou um bocado naba e os meus dedos, apesar de pequeninos, tropeçavam nas páginas virtuais e levavam-me para umas centenas de páginas atrás ou à frente… sim, possivelmente, se eu tivesse paciência poderia dedicar-me e ficar pró nisto dos livros em computadores… mas quando a maquineta me faz perder a paciência e olho para o lado e não me faltam livros para ler, o mais fácil é mesmo deixar de lado e esquecer.

Ler no Kobo é quase como ler um livro, a semelhança das páginas e a funcionalidade convencem-me. Agora esta nova editora de livros virtuais cheia de limitações não me convence

Em resumo, e o que realmente interessa, é que a “Chama ao Vento” é um excelente livro. Pois de outra forma jamais teria resistido a ler até ao fim sujeita a tais condições.

Como eu, muitas mais pessoas acham que este livro “merece” poder ocupar espaço numa estante física, merece ser folheado, observado e cheirado, ou não haveria um grupo no Facebook chamado “Eu quero ver o livro “A Chama ao Vento” em PAPEL”. A verdade é que não será fácil isso acontecer. A forma como o livro chega até nós pode não ser a preferida da maioria, mas não devemos, por isso, desperdiçar a oportunidade de o ler.

Recomendo!

Sinopse

“Vivem-se os anos mais negros da Segunda Guerra Mundial, e a vida brilha com a força e a fragilidade de uma chama ao vento. Na Lisboa de espiões e fugitivos dos anos 40, João Lopes apresenta à sua amiga Carmo um estrangeiro mais velho, homem de segredos e intenções obscuras que depressa a seduz, atraindo os dois jovens para uma teia de mistérios e paixões de consequências imprevistas.
Anos volvidos, Francisco, jornalista, homem inquieto, pouco sabe de si próprio e menos ainda de Carmo, a avó silenciosa que o criou, chama apagada de outros tempos. É João Lopes quem promete trazer-lhe a sua história inesperada, história da família e dos passados perdidos nos tempos revoltos da Segunda Grande Guerra e da Revolução de Abril. Para João, é uma história há muito devida. Para Francisco, o derrubar dos muros que ergueu em torno da memória e da própria vida.
Um retrato íntimo de Portugal em três gerações, pela talentosa escritora de Alma Rebelde.”

Coolbooks, 2014

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