O Intrínseco de ManoloO que me surpreende? Ler dois livros seguidos do mesmo autor e ficar feliz por serem diferentes. Que em livros que considero de poucas páginas (menos de 200) se consiga dizer tanto.

A verdade é que li primeiro o Sebastião porque achei que este Manolo seria um bocado… parolo (coitado). Ouvi umas coisas aqui e outras ali e assumi que seria um livro cómico, talvez com um pé (ou dois) na brejeirice. Pois isto dos livros é um bocado como as pessoas, ou não fossem estas a escrevê-los. Enfim, sinto-me enganada. Enganada como quando conheço uma daquelas pessoas completamente desinteressantes que o tempo revela especiais. Um engano bom.

O que dizer de um livro com tantas personagens mas que a principal é uma árvore?

Com tantas descrições de situações inverosímeis, pitorescas, recambolescas e que não sei que mais lhes possa chamar, mas com uma utilização primorosa da linguagem, que transforma cenários decadentes, deprimentes e até nojentos, com um texto versátil e completo, nascido de uma conjugação de palavras que me deixou várias vezes de queixo caído. Isto é saber escrever.

É um orgulho ver a beleza e a dimensão da língua portuguesa, que até quando se escreve sobre porcaria (para não dizer merda), permite um encaixe perfeito. Fica a ressalva de que só resulta quando se tem talento.

E assim somos apresentados aos habitantes de Cousa Vã. Pessoas de muitas habilidades em diversos campos, algumas com um domínio tão intenso das artes do amor, que me parece terem proporcionado a João Rebocho Pais a criação de um novo estilo. Pelo menos eu ainda não conhecia, não sei que lhe possa chamar ou se alguém já o definiu, mas talvez algo do tipo “erótico alentejano”.

E então, quando estamos perante tantos cenários dignos de pasmo pela originalidade da escrita, que nos dão para rir pelos motivos já apresentados, o cómico vai assumindo uma seriedade emotiva, de alguma forma até ternurenta, por todas as coisas realmente importantes que só chegam ultrapassada a aparência.

Manolo, o parolo, que conversa com uma azinheira, olha para dentro, para o que realmente importa. Leva consigo a dor do caminho da descoberta das coisas que contam.

A ler.

“Não era passado um semestre de matrimónio e a secura a que Tonho a votava, fosse em coisas de cama, de mesa ou de sofá, trazia-lhe a certeza de ser outro o caminho a tomar e muitos outros os parceiros, assim quisesse dar vazão ao que lhe pedia uma alma selvagem, um corpo de bom alimento e uma vagina carnívora – e aqui testemunha o narrador que esse é o termo e assim mesmo terá de ser chamada, uma vagina de fazer corar o mais ávido aventureiro, o mais intrépido conquistador. Tina – Albertina Cruz por casório – não se lembrava de um dia sequer em que a sua feminilidade não se tivesse revelado num estuporado tesão e vontade de luxúria. Anos e anos de repressão paterna, materna, fraterna e o mais que fosse, numa adolescência em que, por imperativo das aparências negara alimento à desembestada que lhe habitava entre pernas, acabaram no triste desastre que era aquele transtorno de homem e marido, aquele empecilho, aquele verdadeiro hino ao vazio de prazer que constituía o seu lar.” (Pág. 66);

“Desde o regresso de Lisboa e suas fulminantes sensações, trazidas em esquinas e esquinas de histórias e pessoas, de retumbantes memórias em forma de estátuas e monumentos de fachadas imponentes, desde esse momento que a vontade de semear algo de seu, algo que visitasse as almas dos seus antepassados com a boa-nova de que tudo valera a pena, crescia no íntimo de Manolo, o mesmo Manolo que à sombra da azinheira teimava em conhecer a sabedoria da árvore, o sentido da vida, dali partindo em busca do que lhe era intrínseco.” (Pág. 122);

“Manolo seguia a sua vida, indiferente a cochichos e ao alimento da curiosidade alheia, ia e vinha com o mesmo vagar e indiferença que aprendera a oferecer ao formigueiro de tristes inúteis que pela terra lhe faziam companhia, que o brindavam com perguntas parvas pela frente e com etiquetas pelas costas.” (Pág. 148);

Sinopse

“Na aldeia alentejana de Cousa Vã – vizinha da espanhola Ciudad del Sol – o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas – e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras – e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia – pois é – remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos – onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história – e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.”

Teorema, 2014

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