“e a noite roda” de Alexandra Lucas Coelho

e a noite roda

Não sei explicar o que me atraiu neste livro. Algo vago e indefinido, um pressentimento difuso levou-me a pegar nele. E que surpresa tão boa! É raríssimo ter a oportunidade de ler um livro quase de um fôlego só, mas, graças às férias, foi isso que aconteceu. “e a noite roda” comoveu-me. Muito e profundamente. Inquietou-me e relembrou-me a absurda obscenidade da guerra, neste caso o conflito Israel-Palestina. Começo a sua leitura numa altura em que esta questão está outra vez na ordem do dia, num momento em que se antevê um novo recrudescer da violência entre esses dois povos. Não tenho palavras suficientemente fortes e claras para exprimir o quanto me dói e angustia assistir impotente aos conflitos e atrocidades bélicas que teimam em ocorrer em tantos lugares deste planeta, nestes tempos supostamente mais evoluídos que os anteriores. Tudo nesta obra de Alexandra L. Coelho me agradou, desde o estilo singelo e escorreito da sua escrita, a lembrar a beleza despojada da literatura nórdica até á narrativa propriamente dita. A história de um amor entre dois correspondentes de guerra que se vão encontrando em vários locais do globo, mas centrada no Médio Oriente, é-nos contada de uma forma realista mas muito bela. Por outro lado, as descrições da duríssima realidade vivida em Israel e na Palestina são tão vivas e envolventes que quase sentimos na pele a angústia e o terror que afligem as pessoas obrigadas a viver sob o jugo de um conflito onde não há inocentes, a não ser as populações civis encurraladas entre os ódios e fanatismos que grassam em ambos os lados.
Considero este livro uma das minhas melhores leituras dos últimos tempos e recomendo-o vivamente. Aqui ficam alguns excertos e também uma canção que fala da urgência e da possibilidade da paz: “Peace train” de Cat Stevens (Ysuf Islam ).

“ Mas somos o que nos acontece, estamos em movimento e todos admiramos aqueles que deixam tudo por amor. Não queremos vidas duplas, queremos reconhecer o que é forte quando acontece. A única moral será o amor. Se o amor estiver deste lado, este lado está certo. Tudo mais é cálculo, conveniência, compaixão”.

“O som entra pelo quarto como um encantador de serpentes, enlaça-nos. Um cântico dos cânticos só para nós. Flutuamos sobre Gaza. Somos um.
Ao fim de todos estes anos eu ficaria contigo assim amanhã.”

“ Morre-se disso aqui, porque a vida não parece melhor. Se o que nos espera é morrer como gado, enquanto resistirmos estamos vivos, a história continua, e ninguém melhor do que os judeus deveria entender isso. Os sobreviventes não são os que baixam a cabeça ou imploram. Foi em nome da força que o Estado de Israel se fundou, cortando com a natureza dos fracos que se deixaram abater. E até hoje a obsessão israelita com a força está na educação das crianças, na relação entre homens e mulheres, na estratégia do exército, no comportamento dos políticos. O Estado de Israel jurou ser forte para que aquilo nunca mais acontecesse. “

“Catarse pós-retirada. Mal os últimos soldados saem, milhares de pessoas lançam-se aos restos deixados por Israel, para esmagar, torcer, derrubar, à paulada, com as mãos, com os pés. (…) Abed, o tradutor que a Cruz Vermelha me recomendou, está atordoado. Caminhamos os dois por entre a amálgama fumegante, pedra, metal, cinzas. E na fronteira com o Egito milhares de pessoas querem passar ao mesmo tempo, entre burros carregados de cigarros, de fraldas, de leite.”

“Seis mísseis acabam com a única central elétrica de Gaza e adeus luz elétrica, adeus frigoríficos. Um míssil aterra entre as duas balizas no campo da Universidade Islâmica e sobra uma cratera. É época de exames. Há estudantes a lerem Jane Austen, a preencherem folhas de cálculo, a pegarem no bisturi. “

“A memória do mal maior não traz em si o bem, depende de cada um. Toda a memória é individual, toda a morte é em vão.”

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