“Mataram a Cotovia” de Harper Lee

mataram a cotovia

Inocência. Curiosidade. Vivacidade. Há tanta vivacidade neste livro brilhantemente escrito sob o ponto de vista de uma criança, que quase parece que, ao invés de permanecer sossegado e quedo nas mãos do leitor, ele deveria saltar e correr energicamente, dando assim àquele um valente susto. Longe de ser uma novidade e alvo de inúmeros estudos e interpretações, esta obra, o único romance de Harper Lee, encontrou em mim mais uma leitora que se deixou cativar pela história narrada por Scout Finch. O enredo criado pela autora denota não só uma grande consciência social como também retrata, creio que fielmente, a sociedade de uma cidade pequena do Sul dos Estados Unidos da América em plena Grande Depressão. Este não é um livro a preto e branco mas sim uma riquíssima paleta de cinzentos que reflecte o melhor, o pior e também as contradições da natureza humana naquela época e contexto. Difícil será falar sobre “Mataram a Cotovia” sem revelar o cerne da sua história, e deste modo, estragar o prazer a futuros leitores. Assim, direi apenas que se aborda não só a questão racial mas também a pobreza, o papel das mulheres na sociedade, a passagem da infância para a adolescência e os meandros do sistema judicial americano. Contudo, o enfoque principal é colocado no problema racial que é tratado de uma forma franca, elegante, verosímil e corajosa. E coragem não deve ter faltado, com toda a certeza, a Harper Lee, nascida e criada no Alabama, que o publicou pela primeira vez em 1960, em plena luta pelos direitos civis da população negra. Na minha opinião faz todo o sentido ler este romance hoje por várias razões, nomeadamente, pelo seu valor histórico, pelos seus personagens ricos em matizes, pela escrita deliciosa da autora e também pelas questões de injustiça social que aborda, algumas das quais ainda persistem nos nossos dias, em maior ou menor grau.

Deixo-vos aqui dois excertos e também o fabuloso “Blowin’ in the Wind” de Bob Dylan que me parece vir muito a propósito:

“ – Retira já o que disseste, rapaz!
Esta ordem, dada por mim ao Cecil Jacobs, marcava o início de tempos um tanto ou quanto conturbados, tanto para mim como para o Jem. Cerrei os punhos e estava pronta para atacar. O Atticus já tinha prometido que me castigava se soubesse que eu tinha andado à pancada; já era bem crescidinha para coisas tão infantis, e quanto mais cedo aprendesse a controlar-me melhor seria para todos. Mas depressa me esqueci de tudo isso.
A culpa foi toda do Cecil Jacobs. Tinha andado a dizer no recreio da escola que o paizinho da Scout Finch defendia os pretos. Eu neguei-o, mas depois contei ao Jem.
– O qu’é qu’ele q’ria dizer com aquilo? – perguntei.
– Nada – disse o Jem. – Pergunta ao Atticus, ele explica-te.
– Defendes pretos, Atticus? – perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.
– Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio.
– Mas é qu’ toda a gente diz na escola.
– Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa…
– Mas então, se não queres que cresça falar desta maneira, porque é que me mandas para a escola?”

“ Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim.”

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s