Sputnik, Meu Amor – Haruki Murakami

 

Finalmente decSputnikidi-me a mergulhar na obra de Murakami. Depois de todos os adjectivos com que já ouvira qualificá-lo – surreal, delirante, assombroso, surpreendente – esperava uma reacção extrema da minha parte. Esperava adorar ou detestar. Não esperava, certamente, aquilo que aconteceu: chegar ao fim do livro com a sensação de que me limitei a arranhar a superfície de um universo vasto e complexo, e de não estar ainda minimamente capacitada para falar sobre ele.

Como é por demais sabido, Murakami aborda a existência de mundos paralelos. O que, dito assim, pode sugerir um tipo de obra virado para espiritismos, anjos da guarda e outras pepineiras que tais. Pois não é nada disso. E também não há civilizações estranhas digladiando-se em busca de anéis e percorrendo terras inóspitas eriçadas de rochas pontiagudas. Longe, muito longe disso. Os mundos paralelos que aqui encontramos são os que cada um de nós encerra no seu íntimo. Sim, o tema aqui não é outro senão a multifacetada natureza humana. O conflito, tantas vezes violento, que se trava dentro de cada alma. O sofrimento por ele causado. As máscaras (de impassibilidade, de normalidade, seja lá isso o que for) usadas para o esconder. A solidão de quem luta consigo mesmo. A intangibilidade dos outros, encerrados nas suas próprias lutas. A utopia da intimidade.

Os mundos paralelos de Murakami não são disparatados, nem irreais, porque estão alicerçados no mundo visível. Contactam a todo o momento com o banal quotidiano a que parece resumir-se a vida. Umas vezes explicam-no, outras vezes complicam-no. De quando em quando, deixam-se vislumbrar, deixando os pobres mortais aterrados e maravilhados ao pressentirem o seu poder avassalador. Estendem pontes, sendo a mais óbvia através dos sonhos (sonhar é a “única coisa que vale a pena”, nas palavras do narrador), o que não significa que não existam outras, como a intuição, por exemplo, ou a inocência da infância.

Não vou falar da linha narrativa deste livro, porque julgo que é o que nele menos importa. A riqueza desta leitura está no que é sugerido e na reflexão que essas sugestões podem provocar. Murakami dá-nos as pistas e deixa-nos fazer o caminho sozinhos. Também o leitor está sozinho, tal como o resto da humanidade. E não conte com o autor para o ajudar nas suas descobertas. Porque todos nós somos “solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.” (pág. 200).

 

Excertos

“As pessoas aproveitam todas as oportunidades para falarem de si mesmas com uma sinceridade espantosa. Dizem coisas do género: «Sou de tal maneira franco e honesto que até parece mal», ou então: «Sou demasiado vulnerável e tenho problemas no relacionamento com os outros», ou ainda: «Tenho muito jeito para compreender os sentimentos dos outros.» Contudo, houve muitas vezes em que vi pessoas que se diziam «vulneráveis» magoarem outras sem motivo aparente. Vi pessoas com um perfil «franco e honesto» usarem desculpas esfarrapadas para obterem o que desejavam a qualquer preço. Quanto àqueles que têm um jeito especial para compreender os verdadeiros sentimentos dos outros, vi-os deixarem-se enganar pela forma mais grosseira de lisonja. Tudo isto me leva a fazer a seguinte pergunta: que sabemos, na realidade, de nós mesmos?” (págs. 67 e 68).

 

“Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou – arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio.” (pág. 230).

 

Casa das Letras, 2002

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