Com os Holandeses – J. Rentes de Carvalho

holandesesMais um livro excelente, que recomendo sem qualquer reserva. A escrita de J. Rentes de Carvalho é maravilhosa, li este livro num constante estado de encantamento pela forma como as palavras são conjugadas de forma perfeita, e os estados de alma chegam até ao leitor através de uma escrita sentida, mas objectiva e nada piegas.

Uma espécie de ensaio que é também uma história de vida. Um género de autobiografia de vasto interesse sociológico. Assim é, escrito na década de setenta e plenamente actual, de uma lucidez e acutilância esmagadoras.

Eu adoro Rentes de Carvalho. Não apenas pela sua escrita mas também pela pessoa que não conheço mas com quem simpatizo. Não sei bem porquê dado que só lhe falei duas vezes, e em ocasiões circunstanciais, guardo a imagem de um ser humano especial. E quando se aprecia assim alguém gosta-se de tudo o que esse alguém faz, neste caso, escreve. Daí a minha opinião poder ser tendenciosa e estar completamente deturpada por esta admiração, coisa que não me incomoda nada mas aviso já que certamente só falarei bem de todos os livros que ler deste senhor.

“Com os Holandeses” é uma descrição bastante completa de um país e dos seus habitantes. Escrito por um observador estrangeiro, um português que deixa o seu país e vai viver para Amesterdam, Holanda. É uma análise exaustiva da sociedade holandesa em vertentes tão pertinentes como família, religião, culinária, cidadania, sexo, educação, arte, vida profissional, e tudo o que leva um homem observador dissertar sobre o meio envolvente, sobre a sua própria experiência de vida, sobre o que é diferente, sobre o que o impressiona, causa espanto. Uma reflexão sobre as diferenças, feita com a justiça de quem não se vê como superior ou inferior, mas com a frontalidade e o discernimento de quem aceita (e também rejeita) o que é distinto.

Genial. Um livro de Rentes de Carvalho sobre ele próprio, a sua experiência, a sua capacidade de análise, as suas dificuldades com toda a espécie de barreiras que as diferenças culturais levantam a quem deixou para trás um país tido como atrasado perante a supremacia de um povo que se acha melhor e mais civilizado. Muito interessante.

“Cavalheiros sérios, fiéis das igrejas, temerosos de Deus, metidos em fatos que ressudavam decência, alegres de poderem explodir assim, impunemente, mas sabendo que se o meu falar era atarantado eu os compreendia na perfeição, que os marcava e à noite – uma fuga? Uma defesa? – me sentava a descrevê-los, anotando os gestos, as palavras, os nomes.” (Pág. 27);

“E a rua é impecável, o telefone automático, o radar pilota os navios, os computadores administram. Quem vem à procura de aventura e romance e os espera a cada esquina bem se ilude. Dará de cara com treze milhões (1971) de indivíduos cujo temperamento não se coaduna às fantasias, às perdas de tempo, aos descuidos, menos ainda à indolência, fanáticos do planeamento, da previsão e do arrumo.“ (Pág. 40);

“Contudo, é raro o dia que me não dou conta de que o holandês, sem ter conseguido criar o paraíso, mesmo assim tem aqui uma extremamente confortável, bem organizada, bem administrada e acolhedora terra, onde o viver pode ter encantos, onde além dos encantos se goza ainda um superior e imprescindível bem: a liberdade.”

“Quando ao ter de escolher preferi ficar, a minha impressão foi de que a Holanda oferecia indiscutivelmente garantias cívicas e políticas que eu sabia, por amarga experiência, serem problemáticas noutros países, mesmo naqueles que juram ter amamentado a liberdade democrática quando ela ainda era de peito” (Pág. 75);

Sinopse

“Sobre o clima, os costumes, as manhas, a bruteza, os vícios, a má comida… A lista começou com Júlio César, alongou-se no decorrer dos séculos, tem casos extremos como o do mal-agradecido Voltaire que, em vez de dar graças pelo refúgio oferecido, sintetizou venenosamente os Países Baixos em “Canards, canaux et canailles”. Jesuíta e diplomata, António Vieira disse pior, mas diplomaticamente. De facto são muitos os críticos mordazes de um país em que outros só vêem campos de tulipas, moinhos a rodar serenamente, montes de queijo, diques, água, abundância de belas raparigas loiras e desempenadas. Assim, o optimista Ramalho Ortigão escreveu a suave aguarela que, para muitas gerações, funcionou como relato exemplar de um país exemplar. O meu caso difere.”

Quetzal, 2009

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