O Intrínseco de Manolo – João Rebocho Pais

 

manolo

O que, neste livro, mais me impressionou resume-se numa frase: a escrita de João Rebocho Pais é de tal forma talentosa que se entranha no leitor por todos os poros, cativando-o a cada frase, impedindo-o de interromper a leitura e inundando-o daquele raro prazer que é desfrutar de um texto magistralmente escrito.

Aqui se demonstra, mais uma vez, que uma linguagem cuidada e trabalhada não tem de parecer artificial nem de perder a fluidez. Pelo contrário: sem deixar de ser evidente a preocupação com a forma perfeita do discurso, as frases sucedem-se num encadeamento tão natural que se torna impossível pôr-lhes um travão. Mais do que uma vez, durante a leitura, me vi confrontada com o dilema ideal de qualquer leitor: por um lado, queria parar de ler para voltar atrás e reler parágrafos que me haviam maravilhado; por outro, não conseguia encontrar um ponto onde me parecesse apropriado interromper a leitura…

Julgo que o estado de encantamento em que este livro me deixou se deveu também a outro factor: é que a prosa que tanto encanta pela forma versa ainda, em termos de conteúdo, sobre temas que todos conhecemos intimamente. Temas muito portugueses, como a maledicência dos medíocres, as vidas construídas na base da troca de favores e até os excessos pós-revolucioinários dos tempos do PREC são aqui retratados com um desassombro que nos faz sorrir.

Chamo, em especial, a atenção para o capítulo denominado “Alberto”, onde se traça o perfil de um personagem que, hoje em dia, com a divulgação mediática da arte do tráfico de influências e da respectiva impunidade, não deixará de parecer familiar a qualquer português, habituados que estamos a deparar, a torto e a direito, com referências nos meios de comunicação social aos chamados “facilitadores de negócios” (uns mais reconhecidos como tal do que outros) e aos chorudos retornos proporcionados por essa actividade. Deixo aqui apenas um pequeno excerto, embora todo o capítulo seja absolutamente delicioso:

“No início eram apenas favores, pequenos favores em nome da amizade e de possíveis simpatias, semeando a eito para colheitas futuras. Desde os bancos da escola que Alberto percebera a matemática do caminho mais fácil, comprando e vendendo, em géneros ou contado, os favores feitos degraus na escadaria da ambição e da ganância. A batota embelezava-se em seus mil e um vestidos, dava sombra e guarida à pouca-vergonha de um exército de fracos, despidos de pudor ou dos mandamentos de Deus.

(…)

Foi com natural aceitação que em Cousa Vã se viu iniciar o percurso político de Alberto Sansão, defensor dos interesses vários da terra, recorrendo como poucos ao uso de misteriosas estratégias que, não raro, atingiam em pleno as ambições de todos e cada um, fossem estas públicas ou meramente particulares. Da ajudinha nas burocracias que permitiam aceder a fundos e empréstimos na banca, passando por elaborados planos de cumplicidade que viabilizavam a manutenção de secretas chácaras do pecado, onde espampanantes e laboriosas mulheres davam vazão a um infinito tesão rural, inovando com um científico, elaborado e cirúrgico aproveitamento das oportunidades, através do aconselhamento em áreas que iam das maleitas incuráveis aos azares do destino, o escritório de contactologia de Beto Sansão assentava sólidos alicerces em terreno de tão certa colheita. E, se o padre encontrava entraves na logística da procissão, se o presidente da Junta esbarrava na impotência de sua fraca influência para conseguir fundos, ajudas ou despachos, era certo que na sebenta, agora feita um composto e elaborado sistema escriturado, se encontraria a solução e a mãozinha necessária ao desenlace a contento.” (págs. 84 e 85).

De notar ainda a notável habilidade do autor para criar cenas escabrosas e mesmo escatológicas sem, no entanto, fazer qualquer cedência em termos de elegância do discurso. Descrições de pormenores repelentes tornam-se divertidíssimas em vez de causarem aversão, e não porque sejam recheadas de poucos pormenores (antes pelo contrário), mas sim devido, exclusivamente, à forma como são apresentadas. Não é tarefa fácil discorrer sobre certos temas com graça e requinte, mas é uma tarefa aqui desempenhada na perfeição. De entre inúmeros trechos que poderia citar para ilustrar este ponto, deixo aqui apenas um:

“Joaquim e Júlio, que para além das iniciais no nome partilhavam uma invulgar incapacidade de utilização do cérebro em coisas de terem algum jeito, mandaram vir mais duas minis e esboçaram um sorriso de chacota; o cervejame ia já na sexta ou sétima rodada, e a deprimente visão das suas dentições, onde abundava o podre e a ausência de molares e caninos, fazia a estreia naquela manhã, abrindo caminho ao sorriso idiota do par de anormais. Tonho Cruz, por mais lucro que tivesse com aquela parelha, por pouca moral que tivesse no que toca a asseios e suas intrincadas regras, não conseguia evitar um espasmo estomacal de cada vez que era obrigado a suportar semelhante suplício nasal, como era o da proximidade com o espectáculo cavernoso daquelas bocas, juradas companhias de um hálito pútrido, fétido, pestilencial e infecto, isto para referir apenas quatro adjectivos que, embora desconhecidos no vocabulário do taberneiro, desenhavam bem o asco de tão desumana e oral coisa.” (págs. 17 e 18).

Resta dizer que, sendo este um livro divertido de crítica social e humana, não se fica por aí; tem também uma vertente mais reflexiva, debruçando-se sobre os anseios e aspirações mais íntimos da alma. Se há passagens que nos fazem rir às gargalhadas, há outras que convidam à introspecção e a meditar sobre as pulsões mais espirituais do ser humano – do seu intrínseco. Num romance de menos de 200 páginas, ainda para mais um primeiro romance, é obra. Gostei muitíssimo e não vou, com toda a certeza, deixar de ler o outro livro do autor, Dizem que Sebastião. Já ouvi dizer que é melhor ainda.

 

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã – vizinha da espanhola Ciudad del Sol – o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas – e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras – e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias.

Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia – pois é – remetente espanhol…

No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos – onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo já velhos ou desaparecidos, são parte importante da sua história – e da de Cousa Vã.

Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

 

Teorema, 2012

 

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