A Cor do Coração – Barbara Mutch

01040580_A_Cor_Do_Coração_201405261607 (2)Uma leitura que muito me agradou mas que não foi exactamente o que me sugeria a sinopse.

Não que faça muita diferença para o desenrolar da acção, mas para mim, o facto de a narradora ser Ada, a filha da criada preta de uma família branca na África do Sul, deu um maior interesse a uma história que a sinopse me levou a pensar ser contada por Cathleen, a esposa e mãe desta família.

A voz de Cathleen também é ouvida, mas através do seu diário. Os seus pensamentos e história de vida escritos num caderno que atrai a atenção de Ada desde criança. Ada é uma menina especial, sensível e curiosa, revela desde muito cedo interesse para as letras e para a música. Cathleen é uma mulher irlandesa que viaja para a África do Sul para se casar, mas que na realidade nunca se adapta ao seu novo lar; e Ada, uma menina que cresce depressa demais por não haver tempo para ser criança, brincar, aprender ou estudar. Cathleen e Ada desenvolvem uma amizade para a vida. Algo improvável e estranho numa África do Sul à beira dos piores anos do Apartheid, em que já se percebia que pretos e brancos não eram considerados iguais.

Ada, ensinada por Madame Cathleen (como tem de a tratar), aprende a ler ouvindo lições enquanto faz limpezas e juntando letras nas ruas quando vai fazer recados ou compras para os patrões. Mas a música é a verdadeira paixão de Ada, e quando Cathleen se apercebe disso começa a ensinar-lhe a tocar piano.

Por muitas vezes pensei na improbabilidade desta história, mas em muitas situações pensei em como queria acreditar que uma amizade assim pudesse ter acontecido num país onde parte da população não era sequer considerada humana. O Apartheid é um tema que me aflige e revolta. Enquadrar Cathleen a Ada nessa época é pouco verosímil mas útil, pela forma como faz pensar e reflectir na enorme capacidade humana para a estupidez, assim como, em oposição, na capacidade humana de ver mais longe e de lutar contra barreiras impostas.

A Cor do Coração é sobre a amizade que dura para sempre, a nobreza de sentimentos que vai para além da idade, cor ou situação financeira, a semente que pode durar até depois da morte, se bem regada e cuidada.

Gostei muito deste livro, e apesar de por vezes o achar demasiado extenso, verifiquei depois o sentido de algumas partes mais exaustivas. A complexidade das tristezas e desilusões de Ada, assim como a incompreensão dos limites que lhe são impostos e a forma como tem de aceitar o seu dever de servir e de se submeter, em contraponto com a sua forma subtil de agir, revelando a inteligência de não se amotinar para não perder ainda mais, representam uma lição de vida sublime, apesar de difícil de aceitar.

Sinopse

“Este romance de estreia de Barbara Mutch tem vindo a conquistar os meios literários internacionais, pela peculiar delicadeza e a sensibilidade que a sua escrita revela. A história inicia-se nas terras do Karoo, na África do Sul, onde uma jovem irlandesa chega para desposar o noivo que não vê há cinco anos e aí constituir família. O livro revela-nos as pouco ortodoxas ligações que se vão tecendo entre os diferentes personagens. Com o rebentar da Segunda Guerra Mundial tudo muda dolorosamente naquela casa, até que uma guerra se instala no próprio país — o apartheid—, dilacerando ainda mais as já fragilizadas relações. A Cor do Coração é, acima de tudo, um romance inteligente e desafiador, que retrata o drama e o sofrimento de duas mulheres capazes de se elevarem acima da crueldade e do preconceito em nome dos valores mais genuinamente humanos.”

Presença, 2014

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