Agora e na Hora da Nossa Morte – Susana Moreira Marques

agoraUm livro sem esperança, logicamente, que a morte é o fim de tudo. Não é acontecimento literário digno de nota mas antes um testemunho de sofrimento, do que custa morrer só e doente.

Na verdade, não o achei tão pesado como esperava. Doloroso mas não de fazer sangrar a alma, pelo menos a minha, que gosta de sangrar à séria com livros, por motivos que o justifiquem. E a morte impiedosa, cruel e injusta (poderá alguma vez ser justa?) pareceu-me suficientemente terrível para entregar as minhas mais sinceras condolências.

É mais um documento de divulgação e esclarecimento das formas como podemos aceitar a morte, conviver com a sua chegada iminente, reduzindo o sofrimento de pacientes e família. O desafio de aceitar o destino, superando a imensa dor de perder as pessoas queridas, mesmo quando, ainda vivas, já partiram.

Numa primeira parte a descrição das motivações de quem vai ajudar a morrer ao abrigo do projecto de cuidados paliativos domiciliários em Trás-os-Montes, iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma região isolada, abandonada pelos mais jovens, onde quem fica enfrenta a morte dolorosa das doenças implacáveis, atenuada pelas raras visitas dos filhos que, presos por compromissos profissionais, assistem a espaços ao definhar dos pais.

A médica e os enfermeiros que vão de aldeia em aldeia tornam-se a (última) família destas pessoas, os ouvintes dos seus desabafos e os apaziguadores das suas tormentas. Autênticos depósitos de histórias perturbadoras e anjos de última viagem, não consigo imaginar a força psicológica necessária a tão nobres funções, e a forma como muitas vezes se devem desfazer em tristezas nos momentos de fraqueza das suas tarefas de confortar e dignificar a última e dolorosa caminhada.

Na segunda parte do livro apenas os relatos de quem vive e sabe que vai morrer, e da família que assiste, impotente, ao que todos sabemos certo. E a morte chega, tal como previsto.

“PALIATIVO: 1. Que serve para paliar. 2. Remédio que não cura mas mitiga a doença. 3. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise; adiamento. 4. Disfarce.” (Pág. 21);

“Mas a metáfora mais certa para a morte é a guerra: uma pessoa batalhando numa cama durante anos até que a sua respiração se confunde com um gemido.” (Pág. 27);

Sinopse

“Agora e na Hora da Nossa Morte é o resultado da viagem que Susana Moreira Marques, acompanhada pelo fotógrafo André Cepeda, fez a Trás-os-Montes para seguir um projecto de prestação de cuidados paliativos em casa, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. 
De aldeia em aldeia – numa paisagem marcada por grandes distâncias, as águias sobrevoando as estradas, e o Douro como fronteira – encontramos pessoas com pouco tempo de vida, familiares que dormem à cabeceira de camas, e o vazio deixado pelos que morrem.
Num registo que mistura reportagem, ensaio, entrevista e diário de viagem, Agora e na Hora da Nossa Morte leva-nos para o lugar onde Portugal acaba e é esquecido, onde todo um modo de vida está em vias de desaparecer. É aí, num tempo de fim, num tempo de urgência, que – perante o sofrimento da doença, a solidão da velhice e a nossa mortalidade – começamos a perceber o que é importante.”

Tinta-da-China, 2013

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