Biografia Involuntária dos Amantes – João Tordo

biografiaNão me identifiquei com este livro, no entanto li-o com entusiasmo. É uma estranha contradição. Mais de 400 páginas de percursos de personagens caracterizados pela melancolia e por um grande desencanto com a vida, com os quais não me identifico, mas não pude deixar de me envolver pela beleza da narrativa de João Tordo.

Admito que, para mim, o conteúdo é desinteressante, ou posso não ter conseguido atingir o verdadeiro objectivo da obsessão do narrador em ir juntando peças de vidas tão desapaixonadas, tendo ele próprio uma vida tão solitária e algo problemática. Mas é difícil quando o próprio, a poucas páginas do fim, tem também dificuldade em perceber o seu próprio esforço. “Talvez eu tenha ficado viciado, talvez não fosse capaz de parar”. Pág. 378.

Ficou pouco em mim da história, dos testemunhos das personagens e da pesquisa feita numa busca cega por vários pontos do mundo. Quando, agora, tento articular tudo na minha cabeça já não consigo, certamente a minha leitura, pautada pelo desinteresse por estas vidas desorganizadas foi perdendo o fio condutor, e nesta altura fica apenas a sensação estranha e descabida de me ter entregue a uma narrativa envolvente sob uma espécie de hipnose que apenas consigo justificar com uma escrita poderosa e brilhante. Leria mais quatrocentas páginas.

 “E a vida é, por definição, uma caminhada absurda cujo final é sempre idêntico. Por que razão não nos deixou Deus em paz, ou seja, inexistentes? Neste lógica incongruente, o Criador coloca-nos neste mundo à mercê de tudo o que é terreno, suculento e carnal, desafia-nos a experimentar e, no final, tira-nos tudo aquilo que nos deu. Reféns da teologia, somos uma piada de mau gosto; reféns do acaso, somos vítimas da ínfima possibilidade. Nesta miséria a que estamos votados, sentimo-nos incompletos e assaz melancólicos. A essa melancolia chamamos vida adulta.” (Pág. 94).

Sinopse

“Numa estrada adormecida da Galiza, dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.
A viagem de descoberta começa com a leitura de um manuscrito da autoria da ex-mulher do mexicano, Teresa, que morreu há pouco tempo e marcou a vida do poeta como um ferro em brasa. O narrador não poderia adivinhar (porque nunca podemos saber as verdadeiras consequências dos nossos actos) que a leitura desse manuscrito teria o mesmo efeito sobre a sua vida.
As páginas escritas por Teresa revelam a sua adolescência no seio de uma família portuguesa contaminada pela desilusão: um pai ausente e alcoólico, um tio aventureiro e misterioso, uma mãe demasiado protectora. Mas o que ressalta com maior vivacidade daquelas páginas é o relato enternecedor do seu primeiro amor, ao mesmo tempo que começam a insinuar-se na sua vida realidades grotescas e brutais. Confrontado pela primeira vez com a suspeita dessa terrível possibilidade, Saldaña Paris mergulha numa depressão profunda. Determinado em libertar o amigo do poder corrosivo do mal, o nosso narrador compõe então, peça a peça, a biografia involuntária dos dois amantes. Uma biografia que passa pelo desvelar do passado, para que este não contamine irremediavelmente o futuro.”

Alfaguara, 2014

 

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