“O Falador” de Mario Vargas Llosa

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Começo este texto com uma confissão insignificante e irremediavelmente fútil: escolhi este livro pela capa. Andava há uns tempos a pensar em voltar à obra ficcional de Llosa mas não conseguia escolher nenhum livro em particular, talvez temendo uma desilusão como aquela trazida por “Travessuras da menina má”. Assim, foi o desenho colorido da arara que me levou a comprar este livro. Isso e também o título, simples, mas pleno de possibilidades: “O Falador”. E através deste me reconciliei com a escrita de um grande autor. Uma das características que mais aprecio na literatura é o modo de escrever fluido e natural, por vezes muito belo, mas sempre sem esforço aparente, sem parecer forçado, que é uma marca indelével dos escritores de excelência. E foi exactamente isto que me trouxe este romance; o fascínio de uma história bem contada, escrita de forma primorosa embora, neste caso, sejam duas as narrativas que se vão alternando, com estilos literários totalmente distintos. Seguimos o percurso de um escritor que evoca uma amizade de juventude terminada de forma abrupta pela partida, para local desconhecido, do seu amigo bem como o périplo de um “falador”, um contador de histórias de tradição oral, duma tribo amazónica. De modo despretensioso, sempre claro e acutilante, o leitor é confrontado com algumas questões muito pertinentes: a construção de uma sociedade mais justa no contexto político da América do Sul, a inserção, ou não, das várias etnias nativas no seio da cultura trazida pelos colonizadores europeus bem como o respeito e a valorização da Natureza e de modos de vida diferentes daquele que é dominante. Todos estes aspectos são, sem dúvida alguma, interessantes, mas vejo este livro como um testemunho de algo mais, como um reflexo de uma faceta humana simultaneamente intrigante e cativante: o fascínio imenso perante a narração de uma história bem contada que nos acompanha desde tempos imemoriais, muito antes da invenção da escrita, talvez até mesmo desde o surgimento da nossa espécie. Será que as histórias, para além de repositórios da cultura dos povos, são também uma forma de nos conhecermos, entendermos e aceitarmos o nosso lugar na existência? Eu acredito que sim.

Uma leitura invulgar e muito interessante, apesar de umas pequenas incorrecções, provavelmente relacionadas com a tradução, como a menção de tigres e pumas como espécies da fauna amazónica. Recomendo, sobretudo a quem se interesse pelas questões ligadas às histórias de tradição oral, à mitologia e às culturas nativas da Amazónia.

Excertos:

“Deixemo-los com as suas flechas, as suas penas e as tangas. Quando te aproximas deles e os observas com respeito, com um pouco de simpatia, dás-te conta de que não é justo chamar-lhes bárbaros nem atrasados. Para o meio em que estão, para as circunstâncias em que vivem, a sua cultura é suficiente. E além disso, têm um conhecimento profundo e subtil de coisas que nós esquecemos. A relação do homem com a natureza, por exemplo. Do homem com a árvore, do homem com o pássaro, do homem com o rio, do homem com a terra, do homem com o céu. E também do homem com Deus. Nós nem sabemos o que é essa harmonia que existe entre eles e essas coisas, pois que a quebrámos para sempre.”

“- São uma prova palpável de que contar histórias pode ser algo mais do que uma mera diversão – ocorreu-me dizer-lhe. – Algo primordial, algo de que depende a própria existência de um povo. Talvez tenha sido isso que me impressionou tanto. Uma pessoa nem sempre sabe porque é que as coisas o comovem, Mascarita. Tocam-te numa fibra secreta, e é tudo.”

“Antes, todos foram homens. Nasceram a falar, ou, melhor dizendo, do falar. A palavra existiu antes deles. Depois, o que a palavra dizia. O homem falava, e o que ia dizendo aparecia. Isso era antes. Agora, o falador limita-se a falar. Os animais e as coisas já existem.”
“Porque falar como fala um falador é ter conseguido sentir e viver o mais íntimo dessa cultura, ter penetrado nos seus meandros, ter chegado ao âmago da sua história e da sua mitologia, ter somatizado os seus tabus, reacções, desejos e terrores ancestrais. É ser, da maneira mais essencial possível, um machiguenga radical, um mais da antiquíssima estirpe que, já na época em que esta Florença em que escrevo produzia a sua efervescência alucinante de ideias, imagens, edifícios, crimes e intrigas, percorria os bosques do meu país levando e trazendo as histórias, as mentiras, as fabulações, as mexeriquices e as anedotas que fazem deste povo de seres dispersos uma comunidade e que mantém vivo entre eles o sentimento de estarem juntos, de constituírem algo de fraterno e compacto.”

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