“Os transparentes” de Ondjaki

Ondjaki

Durante a leitura de “Os transparentes” senti-me, não como tal, mas invisível, vagueando e acompanhando as deambulações e as vidas das pessoas através daquela Luanda agitada e caótica. Nesta cidade descrita por Ondjaki sobressaem, a resiliência, a força de viver e a criatividade de um povo alegre, persistente e, maioritariamente, optimista que incessantemente inventa mil e uma formas para sobreviver. Isto apesar da corrupção, da prepotência e da violência que nos são apresentadas em discurso mais do que directo, por vezes disfarçadas de eufemismos mirabolantes ou, pelo contrário, desbragada e impudicamente óbvias. Não conheço Luanda, não sei até que ponto este será, ou não, ou sequer se pretende ser um retrato fiel da sua realidade actual. Sei apenas que este livro possui, a meu ver, a marca distinta de um verdadeiro contador de histórias, de alguém capaz de capturar a nossa atenção desde as primeiras linhas. Sei também que a luz e que a escuridão características do espírito humano assim como a iníqua e injusta sociedade retratadas não são exclusivas de Luanda, nem de Angola, nem de qualquer outro país mas sim globais, mais ou menos patentes ou dissimuladas, conforme o ponto do planeta em que nos encontremos.
Esta foi, pois, uma leitura provocadora, uma chamada de atenção aguda e premente, para a realidade de um país que, salvo as devidas proporções, não será, se calhar, assim tão diferente da nossa; uma agitadora de consciências, talvez demasiado acomodadas a um quotidiano em que as necessidades básicas da vida não constituem problemas diários. Mas este é também um livro que desencadeia o riso, a tristeza, a nostalgia e, até mesmo, a raiva. Um romance permeado por uma força enorme e por emoções imensas difíceis de esquecer. Para ler e pensar.

Uma nota final relativa à edição da Caminho: preferia que tivessem optado pela colocação de notas de rodapé que são muito mais cómodas para o leitor do que pela inclusão de um glossário no final do livro. Além disso, este revela-se parco pois não inclui várias palavras em línguas angolanas que se encontram ao longo do livro.

Excertos:
“era um prédio, talvez um mundo,
para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções, chovendo internamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos, as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulantes de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos. a esse mundo pode chamar-se “vida”.
….
nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata, progride, desencanta, permanece. a humanidade está feia- de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permanece
porque tem bom fundo.”

“um homem come menos para dar de comer aos filhos, como se fosse um passarinho…e aí me vieram as dores de estômago…e as dores de dentro, de uma pessoa ver que na crueldade dos dias, se não tem dinheiro, não tem como comer ou levar um filho ao hospital…e os dedos começaram a ficar transparentes…e as veias, e as mãos, os pés, os joelhos…mas a fome foi passando: foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências…deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve…estes são os meus dias…”

“…durmam enquanto vos anestesiam com doses de suposta modernidade! é carros lindos, é internetes que nem funcionam, é marginal nova com prédios construídos em areias dragadas sem pedir licença à Kianda, é furar o corpo da cidade sem querer ouvir os outros que já furaram o corpo das cidades deles, onde não deu certo…ouçam bem, seus dorminhocos, lá não deu certo, e aqui, porque somos estúpidos, cegos e coniventes, isto é, porque somos globalmente corruptos, aqui a cidade vai ser furada, a água vai ser privatizada, o petróleo vai ser sugado sob as nossas casas, os nossos narizes, e as nossas dignidades…enquanto os políticos fingem que são políticos…enquanto o povo dorme…enquanto o povo dorme…”

“ainda assim, o Partido no poder entende que, em Angola, não se vive o momento apropriado para as fulminantes celebrações que se avizinham – o Presidente tossiu levemente – assim sendo, e dado o recente passamento da camarada Ideologia, um dos pilares morais e cívicos da nossa nação, o Partido no poder decidiu cancelar quaisquer celebrações coletivas, propondo um período de três dias de luto nacional. nesse quadro, e imbuído dos poderes que me assistem, venho por meio comunicado afirmar que Angola anuncia ao país e ao mundo o cancelamento, repito, o cancelamento total do eclipse anunciado para os dias próximos. (…) a partir deste momento o Partido declara inteiramente cancelado o tão esperado eclipse total!”

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