Os Demónios de Álvaro Cobra – Carlos Campaniço

osdemoniosdealvarocobraQuem me conhece sabe que, hesito e pondero antes de ler obras de autores portugueses, mesmo quando são muito recomendados. A minha preocupação é que a narrativa seja muito descritiva ou analítica e que me faça sentir apenas tédio. Não foi o que aconteceu e foi uma grata surpresa. Tão grande, que não cabia em mim o espanto.

Uma estória de realismo mágico contada em bom ritmo, que me recordou os contos de tradição oral que tanto me encantam. A vivacidade e espiritualidade de certas expressões que são intemporais e que definem a nossa identidade surgem com frequência nesta narrativa bem estruturada, que exorbita e caricatura circunstâncias ou personagens em tantas peripécias.

Sendo eu de um meio pequeno em que todos se conhecem e todos sabem de tudo e sobre todos, é muito divertido o impacto que a aldeia alentejana – Medinas, tem nesta estória. É como se de outra personagem se tratasse, e condicionasse a ação das outras personagens. Efeito punitivo ou moralizador e nestes moldes também entram cristãos e judeus e a relação entre eles nos finais do Sec.XIX. 

Empatia por personagens exacerbadas com os seus defeitos e qualidades, as suas alegrias e tristezas, em existências marcadas por dificuldades e dureza.

“(…) – Uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais. Chegou a parecer-lhe que aquela casa era um abrigo de gente saída dos contos populares dos nómadas. Não obstante, no rosto da aldeia, as gentes eram iguais ás demais encontradas nas vilas e aldeias e nos caminhos de terra batida daquele imenso Sul.” (pag. 57)

Indubitavelmente, um prazer de ler. 

Sinopse:

A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com um mês já tinha dois dentes, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes – mas ressuscitou, e desde então um bando de grifos faz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…
Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX – na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
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