“Kafka à beira-mar” de Haruki Murakami

 

kafka   Ao terminar a leitura deste livro, sou, subitamente invadida por um certo silêncio, por uma ausência de palavras. Como se, por um momento fugaz, o fluxo constante de pensamentos tivesse abrandado, dando lugar a uma espécie de silêncio de ideias e de palavras claramente definidas. Este romance de Murakami pode, com toda a certeza, ser analisado sob múltiplos prismas e aspectos mas não é esse o objectivo deste texto. A sensação quase mágica de silêncio levou-me a concluir que qualquer tentativa de análise seria totalmente inadequada. Assim, limitar-me-ei a dizer que gostei e muito deste livro. Gostei dos seus personagens incomuns e até mesmo insólitos; gostei do estilo escorreito mas elegante da escrita do seu autor; gostei da força inexorável da narrativa que me cativou desde o início. E, finalmente, gostei imenso da forma como a história flui entre dois mundos, talvez paralelos, talvez sobrepostos, proporcionando ao leitor um vislumbre da rica cultura japonesa, de algumas das suas crenças ancestrais profundamente enraizadas no xintoísmo. São estas, sem dúvida, que permitem encarar com tamanha naturalidade a possibilidade de contacto entre o mundo físico do quotidiano e mundo mágico, espiritual subjacente ao primeiro, e por isso mesmo, não menos real do que este. “Kafka à beira-mar” fala-nos de viagens; de uma viagem no sentido geográfico do termo mas também de um percurso interior em direcção ao cerne do ser, da sua luz e da sua sombra, do seu lugar na existência.

Este foi o meu primeiro contacto com a obra de Haruki Murakami e, garantidamente, não será o último.

Excertos:

“ Mentes limitadas, desprovidas de imaginação, intolerância, teorias desfasadas da realidade, terminologia barata, ideias dogmáticas, sistemas rígidos, essas é que são as coisas que realmente me assustam. É isso que eu mais temo e mais detesto nesta vida. Claro que a questão de saber o que está certo e o que está errado é muito importante. Todos nós cometemos erros de julgamento que podem eventualmente ser corrigidos. Desde que tenhamos coragem para reconhecer que errámos, as coisas podem compor-se. Agora, espíritos tacanhos e intolerantes, sem imaginação, são como parasitas que transformam o hospedeiro, mudam de forma, sobrevivem e vingam. São uma causa perdida, e eu não quero vê-los aqui por perto.”

“Ser burro ou ser brilhante não vem ao caso. O que importa é que saibas ver o mundo pelos teus próprios olhos.”

“- Não é só a questão de Nakata ser burro. Nakata também é vazio por dentro. Só agora é que se deu conta. Nakata é como uma biblioteca sem um único livro. Antes não era assim. Dentro dele Nakata costumava ter livros. Durante muito tempo não soube isso, mas agora tudo voltou á memória. Nakata costumava ser normal, igual às outras pessoas. Mas aconteceu uma coisa que o transformou numa espécie de invólucro sem nada lá dentro.”

“Sinto um aperto no coração, parece uma coisa quente, um íman poderoso que me puxa na direcção da cidadezinha. Os meus pés são de chumbo e não se mexem. Se seguir em frente nunca mais a verei. Estou numa encruzilhada. Perdi toda e qualquer noção do tempo. (…) Estou preso entre dois vazios. Não faço ideia do que é o bem e o mal. Nem sequer já sei o que quero. Estou parado no meio de uma tempestade terrível. Não me consigo mexer e nem as pontas dos dedos à frente dos olhos vejo. Só sei que não me consigo mexer. A areia, de uma brancura que faz lembrar ossos pulverizados, envolve-me nas suas garras. E é então que a oiço – a Saeki-san- dizer-me algo. “Afinal tens de voltar atrás diz ela, num tom decidido. É isso que eu quero. Quero que estejas lá.”
O feitiço quebra-se. Volto a ser eu, de corpo inteiro. O sangue quente volta a correr pelo meu corpo. O que ela me deu, as últimas gotas de sangue dela. No momento seguinte, retomo a marcha e corro atrás dos soldados. Basta uma curva e o pequeno mundo no meio das colinas desvanece-se, como uma fresta cavada entre dois sonhos.”

 

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