A Vida Privada de Maxwell Sim – Jonathan Coe

250_9789722049009_vida_privada_mSe há livros que nos dão um banho de realidade este é um deles.

Maxwell é um homem fechado, não fala, passa por ignorante aos olhos dos outros. Este livro é tudo o que mais ninguém sabe sobre ele, as suas reflexões sobre os outros e sobre acontecimentos do passado, sobre o casamento, política, ambiente. Max é fascinante na sua forma de pensar, mas para o resto da humanidade é considerado um verdadeiro falhado.

Um retrato muito fiel sobre a actualidade na forma como a distância física entre as pessoas é atroz. Estamos sempre contactáveis, os nossos passos são permanentemente controlados, mas os nossos amigos são pouco reais pois que podemos falar com eles a toda a hora mas nunca vimos uma grande parte deles. Redes sociais, mensagens por telemóvel, tudo comunicações sem voz nem corpo. Um Mundo globalizado de pessoas sozinhas. De que forma a comunicação global conseguiu fomentar deste modo a solidão?

Max está deprimido e sente saudades de falar com alguém. Acaba por tentar ultrapassar tudo isto de formas bizarras, falando com estranhos na rua. A mãe morreu, o seu casamento acabou, o pai vive na Austrália, não sabe se vai manter o emprego por causa da depressão. É então que Max desabafa com o leitor, viaja no tempo recordando a sua vida pelas situações que lhe causaram mais dor; tenta perceber o porquê de tudo lhe correr mal e cada vez se afunda mais em sentimentos negativos.

De forma inesperada, Max aceita uma proposta de trabalho insólita. Participa numa campanha publicitária que consiste em levar escovas de dentes até um dos pontos mais remotos da Grã-Bretanha. Esta viagem solitária não vai melhorar o seu estado mental, na medida em que começa a ter conversas com o GPS, com quem desabafa sobre todos os tipos de tormentos com que vive, mas ao mesmo tempo funciona como uma espécie de exorcismo, pois Max desrespeita o percurso traçado e faz algumas visitas ao passado sob forma paragens em pontos estratégicos, onde habitam pessoas que o influenciaram ou que o irão surpreender pelas revelações que, de forma inesperada, se sucedem.

Torci pela recuperação, pela cura, vivi a dor de Max e quis muito que ele fizesse as pazes com o passado. Estava nas últimas páginas a preparar-me para o final feliz (eu que nem gosto de finais felizes, mas pronto depois de tanta infelicidade era no mínimo justo) e levei uma dura lição que doeu como um par de estalos. Por muito que nos deixemos levar (e a minha entrega a este livro foi total) quem manda no livro é quem o escreve.

“Foram vocês que nos educaram para sermos zombies consumistas. Varreram todos os outros valores para debaixo do tapete, não foi? Cristianismo? Não precisamos. Responsabilidade colectiva? Onde é que isso nos levou? Fabricar? Construir coisas? Isso é para falhados. Sim, vamos pôr aqueles falhados no Extremo Oriente a fazerem tudo por nós, para podermos ficar sentados em frente da televisão a ver o mundo ir para o inferno… em ecrã gigante e alta-definição, claro.” (Pág. 47);

“Hoje em dia, havia sempre algum satélite em órbita apontado para nós a todos os minutos do dia, apontando as nossas localizações com uma velocidade e precisão inimagináveis. Já não existia privacidade. Nunca estávamos verdadeiramente sós. Na verdade, essa devia ser uma perspectiva reconfortante – eu já tivera a minha dose de solidão, mais do que suficiente, nos últimos meses -, mas, por algum motivo, não era.” (Pág. 74);

“Precisamente quando eu começava a achar que a minha vida não podia tornar-se mais desapontante, descubro que na realidade nem devia ter nascido. Aí está um belo epitáfio: “Aqui jaz Maxwell Sim, a pessoa mais desnecessária que alguma vez nasceu.” (Pág.291);

Sinopse

“Maxwell Sim bateu no fundo. A sua vida pessoal é um vazio. Ele tem 70 amigos no Facebook mas ninguém com quem falar. Mas tudo muda graças a uma disparatada proposta de trabalho: conduzir um carro carregado de escovas de dentes de Londres até às remotas ilhas Shetland. Um percurso longo que Maxwell decide preencher com uma série de visitas surpreendentes a figuras do seu passado. Acompanhado por “Emma”, a voz feminina do seu GPS, com quem estabelece uma peculiar relação, ele não imagina que está a iniciar uma viagem íntima que o mudará para sempre.”

D. Quixote, 2012

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2 pensamentos sobre “A Vida Privada de Maxwell Sim – Jonathan Coe

  1. Um livro que aborda questões extremamente pertinentes e actuais. Infelizmente às vezes tem-se a sensação que o avanço tecnológico, em vez de estimular a evolução do ser humano, leva mas é à infame descoberta de novas formas de crueldade. Gostei imenso do teu texto!

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