Passageiros da Neblina – Montserrat Rico Góngora

passageirosHá livros que nos escolhem. “Passageiros da Neblina” captou o meu interesse numa Feira do Livro e de imediato o comecei a ler. A capa, bastante apelativa, remeteu-me para um outro livro que nunca li, mas que tenho agora um renovado interesse em descobrir. Trata-se de “A Conspiração dos Antepassados” de David Soares. Assisti à apresentação há uns anos e fiquei muito curiosa por esta relação que parece ter havido entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley.

“Passageiros da Neblina” começa de uma forma empolgante e verdadeiramente grandiosa. As oitenta páginas da primeira parte são lidas de um fôlego, com crescente interesse e muita curiosidade sobre uma amizade estranha entre dois homens conhecidos, recheada de pormenores intrigantes do oculto, e o que podem ser chamadas de práticas mágicas desconhecidas numa Sintra misteriosa, envolta numa neblina que tanto esconde como deixa espreitar segredos que a cada página me sentia ávida de descobrir.

A segunda parte é um regresso no tempo aos acontecimentos que são aflorados no início. Deixamos a década de trinta e assistimos ao relato pormenorizado de actos e ambientes numa Sintra palco de crimes, num misto de ficção e factos históricos que não terei credenciais para validar, mas que me convenceu. Todos os personagens estão submersos em mistério, por vezes o tema do ocultismo e da magia negra que rodeia a personagem intemporal de Crowley torna-se pesado.

Senti que tanto mistério tornou por vezes a narrativa algo sinuosa. O constante juntar de pistas e de tomar atenção a todos os pormenores cansaram, por vezes, o detective que há em mim. A autora tende a tornar-se repetitiva em alguns aspectos, o que é uma pena, pois que tirou fôlego a esta espécie de policial histórico requintadamente assombrado pelos fantasmas de Sintra, visitado por figuras históricas mundiais, como Darwin, e, se por um lado agrada pela forma como atiça a curiosidade com meias pistas, por outro lado, o debitar dos factos a “conta-gotas” acaba por se reflectir negativamente em demasiadas repetições que não cumprem a cem por cento o objectivo de repor a clareza e o entendimento.

Não posso deixar de me sentir um pouco enganada por Fernando Pessoa ser uma personagem demasiado secundária e apenas presente na primeira parte, daí a minha vontade de aprofundar este “encontro” entre dois homens que me deixam o espírito ávido de interesse e ganas de descobrir mais.

“Passageiros da Neblina” é um bom livro, que li com prazer, mas que me soube a pouco. Será talvez o incentivo para outras leituras e pesquisas sobre um tema que sinto que me poderá levar numa espiral que queda, medo e sustos, mas que curiosamente revelo sinais de ansiar.

“Acredite ou não, em Sintra circulam sempre os mesmos espectros, uma vez e outra. Vêm como passageiros da neblina, como áugures de uma tragédia.” (Pág. 21)

Sinopse

“O encontro ocorreu em Setembro de 1930, quando Aleister Crowley chegou inesperadamente a Lisboa, com o pretexto de conhecer Fernando Pessoa, com quem se correspondia há algum tempo, em torno de interesses comuns em astrologia e esoterismo. O poeta recebeu-o no Cais da Rocha do Conde de Óbidos mas pouco mais se sabe sobre o que se passou entre eles. Crowley, conhecido por muitos como a Besta 666, foi uma das figuras mais enigmáticas do seu tempo. Expulso de Itália por Mussolini, sobre ele recaíram as acusações de culto ao demónio e práticas de magia negra. Dias depois da sua chegada a Lisboa, o mágico ocultista foi a Sintra jogar uma misteriosa partida de xadrez e desapareceu nos penhascos da Boca do Inferno, deixando uma críptica nota de suicídio. Especulou-se bastante sobre o eventual envolvimento de Pessoa na suposta encenação macabra. 

A partir deste encontro, a escritora cria uma história sobre uma maldição com mais de cem anos, que atravessa gerações, onde personagens fictícias convivem com outras personalidades reais, como Charles Darwin, George Everest e o jornalista Augusto Ferreira, amigo do poeta. “Um caso de polícia intrigante, novos crimes, uma família atravessada por silêncios, loucura e amores secretos, as lutas religiosas e políticas da época, a simbologia e as práticas maçónicas”, este é o universo de “Passageiros da Neblina”….”

Planeta, 2009

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