Rosa Candida – Audur Ava Ólafsdóttir

rosacandidaRosa candida foi uma experiência de leitura nova para mim. Diferente de todos os livros que já li, assenta numa simplicidade literária quase infantil e se calhar, por isso, muito bela.

Senti estranheza nesta história, como se tudo fosse acontecendo ao sabor de vontades alheias aos personagens; coincidências estranhas que me levaram a um patamar fantasioso e por vezes pouco credível. Uma espécie de conto de fadas que poderia acontecer numa dimensão diferente.

Uma criança concebida de forma casual, nem fruto de amor, paixão ou desejo. Senti sempre uma grande distância nas relações familiares e humanas, e uma grande proximidade com o natureza, como se acima das vontades humanas, estivesse sempre a Mãe Natureza, uma espécie de relógio que nos comanda a cada tique-taque.

Não conheço a Islândia. Mas deve ser assim, uma força natural que tudo domina, um colosso de cores que tudo preenchem, absorvendo a posição superior que o Homem veio a assumir na Terra.

Lobbi (nome simpático para um rapaz de nome impronunciável) foge. Não sei se ele sabe para onde pois eu nunca cheguei a saber a direcção desta viagem de fuga, deixando paisagens agrestes em busca de um jardim. Curioso como procurou a mesma coisa mas com ordem. Um jardim de rosas num mosteiro que se calhar só vai existir na nossa imaginação. Lobbi não encontrou nada de novo, pois que tudo o que lhe faltava ele já tinha mas não sabia que queria. Fugiu da família mas queria a sua família, e até já tinha – a sua filha de uma espécie de acaso na estufa, o seu local preferido.

Saudades da mãe que morreu, uma relação pouco convencional com o pai, e um irmão gémeo muito especial. É a família de Lobbi. Inclui mortos e vivos. Deixa-os para trás mas não pára nunca de sentir a força do que vai para além do que conseguimos explicar. O que nos faz aquilo que somos. A nossa família.

Uma escrita crua e sem artifícios, mas que de alguma forma que não justifico, me fez levitar e sonhar. Um livro bonito que não me permitiu compreender tudo, mas que me encantou de uma forma pouco racional que só posso explicar como magia.

Impossível deixar de referir a capa. Lindíssima.

“Sempre que queria estar sozinho com a minha mãe, ia ter com ela à estufa ou ao jardim. Era aí que podíamos falar. Por vezes ela parecia distraída e eu perguntava-lhe em que estava a pensar, ela dizia: Sim, sim, gosto do que dizes. E depois oferecia-me um sorriso encorajante de aprovação.” (Pág. 20)

“É tão diferente quando podemos tocar em plantas vivas. As plantas de laboratório não produzem qualquer cheiro depois de uma chuvada. É difícil explicar ao meu pai, com palavras, o meu mundo e o da minha mãe. Interessam-me as coisas que nascem de solos férteis” (Pág.21)

“Acho que é importante, para uma pessoa que cresceu no meio de uma floresta, compreender que uma flor pode crescer em isolamento, sozinha, brotando da areia negra e, por vezes, num desfiladeiro. Quando falo da flor selvagem do Alasca fico um pouco sensibilizado.” (Pág.104)

Sinopse

“Um jovem decide deixar a casa da sua infância, o irmão autista, o pai octogenário e as paisagens familiares de campos de lava cobertos de musgo, em busca de um futuro desconhecido. Pouco antes da sua partida recebe um terrível telefonema: a mãe falecera num acidente de carro. As suas últimas palavras tinham sido de doce conselho ao filho, incitando-o a continuar o trabalho que partilhavam na estufa, mais especificamente o cultivo de uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida.
Antes da morte da mãe, naquela mesma estufa, vivera um breve encontro de amor. Foi quando já preparava a sua partida que soube que, nessa noite, concebera inocentemente uma criança. Atordoado com todos estes súbitos acontecimentos, procura refúgio, recolhendo-se num majestoso jardim abandonado de um antigo mosteiro. É aí que se vai dedicar a fazer florescer aquela rosa rara de oito pétalas. Ao concentrar a sua energia no seu cultivo, aprende também, sem dar por isso, a cultivar o amor.
Rosa Candida é a história de um jovem que assume o papel de pai ao mesmo tempo que se torna homem. Uma história de amadurecimento, sobre a beleza da vida e a forma como pequenas e simples experiências podem muitas vezes transformar a realidade numa extraordinária e incomum vida. Um livro impressionante que nos faz perceber que mudar, por vezes, é tudo o que precisamos…”

Marcador, 2014

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