O Retorno – Dulce Maria Cardoso

 

o retorno

Ler este livro foi uma viagem no tempo. Foi um voltar à infância, ao pós-25 de Abril, ao tempo em que os dias de férias e fins-de-semana eram passados a brincar na rua e em que praticamente todos os companheiros de brincadeiras eram retornados. Claro que, na altura, como criança que era, não me apercebi da dimensão do drama humano que ser retornado representava. Aliás, só muito mais tarde vim a saber de muitas das componentes desse drama. Naquele tempo, nem me passava pela cabeça que aqueles miúdos com quem brincava todos os dias tivessem tido todos os seus pertences encerrados em contentores durante meses a fio por não terem possibilidades de os ir levantar, nem que tivessem passado os mesmos meses amontoados em hotéis até conseguirem uma casa ao pé da minha. Para mim, a palavra “retornado” queria apenas dizer que tinham vindo de África, onde viviam antes. Sabia que tinham saudades de lá porque os ouvia dizê-lo. De resto, eram crianças como eu, a quem emprestava a bicicleta e os patins porque estavam cá há pouco tempo e ainda não tinham os seus.

Rui, de 15 anos, chega à “metrópole” com a família no Verão Quente de 1975. A história é-nos contada pela sua voz e filtrada pela sua percepção de adolescente. Através dos seus olhos, revemos os “tempos conturbados”, os discursos típicos da época – tanto o do zelo revolucionário como o da revolta dos despojados -, a obsessão com os plenários, votações e demais manifestações democráticas onde os discursos se eternizavam e as conclusões rareavam (até na minha sala de aula havia um jornal de parede e se faziam plenários para discutir as queixas aí enumeradas, obviamente sem qualquer resultado prático), os comentários racistas contra os “pretos”, apelidados de burros e preguiçosos, a discriminação mais ou menos aberta contra os “retornados”, vistos como exploradores oportunistas que, acabada a fonte de receita, vinham agora competir por empregos com os que sempre cá haviam estado. Para todo o cenário ainda se me tornar mais familiar, o hotel em que a família de Rui é alojada parece ser o Estoril-Sol, a cuja piscina tantas vezes fui nos anos que se seguiram aos factos aqui relatados e onde, aliás, aprendi a nadar, pela mão do fantástico Professor Azinhais (do qual nunca mais soube nada e que hoje, infelizmente, já deve ter morrido).

As descrições e reflexões do Rui fizeram-me, pois, viajar no tempo, não só por se reportarem a acontecimentos e lugares de que tão bem me recordo, mas também por retratarem na perfeição o pragmatismo sem cedências tão característico da adolescência: ele tem de fazer o que tem de fazer, sem qualquer contemplação pelas suas próprias limitações, que vê como fraquezas vergonhosas; e a sua visão dos outros é a preto e branco, sem gradações nem atenuantes – a histérica, o maluco, o gabarolas, o tarado sexual, o amigo, a oferecida, etc. Quem nunca viu o mundo desta forma que atire a primeira pedra…

Esta foi uma leitura que me prendeu do princípio ao fim, e julgo que o mesmo acontecerá com qualquer leitor que tenha memória dos tempos do PREC, por difusa que esta seja. Conta-se aqui uma história que tem demasiados pontos de contacto com o nosso passado recente para que assim não aconteça. E, mais do que isso, levantam-se aqui questões, tanto políticas como humanas, sobre as quais qualquer português que estivesse vivo em 1975 não pode deixar de reflectir.

 

Excertos:

 

“Os empregados não nos querem cá e não gostam de nos servir. Acreditam que os pretos nos puseram de lá para fora porque os explorámos, perdemos tudo mas a culpa foi nossa e não merecemos estar aqui num hotel de cinco estrelas a sermos servidos como éramos lá. Os empregados preferem servir os pretos que nem nos talheres sabem pegar a servir-nos a nós, acham que os pretos são vítimas que ao fim de cinco séculos de opressão ainda tiveram de fugir da guerra. Dêem-lhes de comer como nós demos, sirvam-nos e um dia vão ver, quando eles se revoltarem e quando lhes fizerem o que nos fizeram a nós, batem-lhes à porta e levam-nos de mãos atadas, vão levá-los e eu vou rir-me. Os de cá podem dizer o que quiserem que não vão mudar a minha opinião, os pretos não prestam. Também se riam para nós até terem uma catana na mão, os de cá ainda vão arrepender-se mas já vai ser tarde demais. E eu não vou ter pena nenhuma.” (pág. 91 e 92).

 

“A Rute não se importava de ser Miss Portugal mas também não pode, os revolucionários acabaram com os concursos das Misses e as mulheres têm de queimar os sutiãs e ir deitar panelas fora nas manifestações para não serem acusadas de reaccionárias. A Rute gostava da viver na América, na América as mulheres também queimam sutiãs mas continua a haver concursos de Misses, ninguém manda em ninguém. Se a metrópole seguisse a América em vez da União Soviética a Rute podia ser Miss Portugal.” (pág. 104).

 

“O Pacaça torna a recordar que se convocou o plenário para resolver problemas concretos, alguns deles já antigos, e passa a ler, quartos sobrelotados que não oferecem condições mínimas aos que neles têm de habitar, esperas para todas as refeições que chegam às duas horas e que além de agastarem quem nelas tem de permanecer de pé ocasionam distúrbios que põem em causa o clima pacífico que todos prezamos, a comida de péssima qualidade, prova da falta de consideração com que somos tratados. Lê agora os problemas mais recentes, um dos elevadores de serviço há mais de três dias avariado fazendo com que o pessoal tenha de usar os nossos elevadores tornando-os ainda mais insuficientes, a tendência crescente para o desleixo higiénico dos espaços comuns como a própria sala onde estamos pode comprovar, e por último a razão principal para a convocação do plenário, o esvaziamento da piscina sem ter havido sequer um aviso prévio, uma atitude abusiva que merece a nossa veemente condenação. Batemos palmas mais uma vez, o lado dos trabalhadores não se mexe. Está ainda o Sr. Acácio a gritar de pé, apoiado, apoiado e já o maoísta protesta porque a competência e o zelo profissional dos camaradas cozinheiros e das camaradas da limpeza tinham sido injuriados. A propósito disso o maoísta fala uns dez minutos sobre a resistência que a força do trabalho dos camponeses, operários e assalariados deve exercer contra os agrários exploradores, o patronato chupista e os capitalistas cegos pela ganância. Acrescenta que a existência de elevadores de serviço é um atentado à revolução que foi feita para acabar com essas diferenças e lembra que noutras revoluções rolaram cabeças por semelhantes afrontas à igualdade. Sobre o esvaziamento da piscina apoia a decisão da camarada directora, a piscina é um símbolo dos hábitos da burguesia reaccionária e mesmo vazia atenta contra os interesses legítimos dos trabalhadores, dos camponeses e da classe operária.” (págs. 118 e 119).

 

Tinta-da-China, 2012.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s