Diário de um Escândalo – Zoë Heller

diariodeumescandaloNão sabia bem o que esperar deste livro mas a curiosidade era mais que muita. Descobri uma narrativa viciante e um argumento que apela ao virar compulsivo de páginas. Lido praticamente num dia, “Diário de um Escândalo” ganhou a minha atenção através de Barbara, uma personagem secundária, que é também a narradora da trama.

Barbara, uma mulher madura, sozinha e muito observadora, é professora na mesma escola em que a sua colega e amiga Sheba, também ensina. Sheba é mais nova e é a professora recente que ainda se está a adaptar a uma nova realidade, pois até então dedicava-se à vida caseira de educar os filhos e agradar o marido. É uma família cheia de fraquezas e Barbara, à medida que se aproxima e com eles convive, vai percebendo as manipulações doentias de um lar de classe média/alta disfuncional. A perspicácia e análise que Barbara faz da realidade de Sheba são acutilantes e geniais. Rapidamente se apercebe da fragilidade emocional de Sheba, da incapacidade de lidar com a filha mais velha, adolescente e delinquente, em gerir a relação demasiado próxima que o marido continua a ter com a ex-mulher, para quem Sheba organiza jantares regularmente.

Sheba só tem uma amiga. Barbara torna-se sua confidente e ao mesmo tempo dependente, pois na sua vida solitária fazer uma amizade é algo a que não está habituada e nem sempre sabe reagir. Estas duas mulheres diferentes ficam unidas não só pela amizade, mas também pelo segredo de Sheba, a relação íntima com Connolly, um aluno de quinze anos.

As carências de Sheba são notórias na procura de um amor obsessivo por um rapaz com dificuldades de aprendizagem e completamente desinteressante. A relação torna-se compulsiva, o mundo de Sheba desfaz-se com a condenação ao ostracismo que a sociedade lhe impõe. O aluno é considerado uma vítima, por ser menor, mas a meu ver Sheba é a verdadeira vítima. Vitima da sua própria vida vazia e disfuncional, que a fez procurar abrigo no local errado.

Um livro que se lê com constante entusiasmo mesmo sabendo qual é o final. Uma estrutura bem pensada e uma narrativa bem construída abrilhantada pelo discurso de Barbara que nos dá a conhecer o escândalo, e também a mulher só que se vê presa numa amizade com uma mulher descompensada e excluída. Duas formas diferentes de solidão, unidas de modo pouco saudável, na medida em que Barbara condena o sucedido mas não consegue abandonar a sua única amiga.

“Sou muito tolerante em relação a quem acredita em contos de fadas, mas imponho um limite quando me cheira a delírio. Eu e a minha irmã temos um acordo tácito sobre a minha não participação em actividades religiosas. Ela está pronta a aceitá-la, desde que eu finja vagamente que “não me sinto muito bem”. Já passei tantos Natais em casa dela deitada no sofá da sala a fingir que beberrico chá com limão que presentemente os meus sobrinhos já me consideram uma inválida permanente.” Pág. 66

“Há certas pessoas nas quais é possível detectarmos as sementes da loucura… sementes que permaneceram adormecidas apenas porque essas pessoas levaram vidas relativamente confortáveis típicas da classe média. Funcionam bem no mundo, mas podemos imaginar como, perante um pai cruel ou um longo período de desemprego, o seu potencial de loucura poderia vir ao de cima, como as suas sementes teriam germinado pequenos rebentos de demência, ou até, com o tipo certo de negligência, desabrochar em total insanidade.” Pág. 181

Sinopse

Um melodrama ao estilo de um thriller, leva-nos ao encontro de duas mulheres que partilham entre si uma confidência: uma relação afectiva de uma delas, Sheba, professora, casada, com quarenta anos de idade, com um aluno de apenas quinze anos. Esta relação extra-conjugal é mantida em silêncio, numa relação de intimidade entre as duas amigas, até ao dia em que num acto de pura vingança Barbara, a fiel depositária do segredo, movida por ideias de ciúme e inveja, torna o caso público, causando um verdadeiro escândalo junto do director da escola, da mãe do aluno, do marido da amiga, da comunicação social e até da polícia. Sheba sente-se completamente sozinha mas apesar de tudo, Barbara ficará ao seu lado. Uma história de repressão e paixão, em que o amor, mesmo o proibido, é uma constante num retrato psicológico muito bem construído, satírico em relação à sociedade, profundo e comovente no que toca aos comportamentos humanos, especialmente entre seres do mesmo sexo.

Editorial Presença, 2007

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