Os Memoráveis – Lídia Jorge

 

Os memoráveis

Na história do mundo, há momentos em que o eterno ciclo de desencantos e fatalidades se interrompe e nele se abre uma brecha através da qual se introduz uma luminosidade pura, uma alegria espontânea que contagia quantos a presenciam e dá origem a acontecimentos extraordinários. São momentos de excepção, em que os espíritos se elevam e pessoas comuns praticam grandes feitos. Momentos em que a inocência triunfa sobre o cinismo, em que os valores derrubam toda a hipocrisia que habitualmente os sufoca. E por serem tão especiais, esses momentos são recordados como lendas e celebrados por muito tempo. Tal como os seus protagonistas.

Esta tese é-nos apresentada logo no início do livro por nada mais, nada menos do que Frank Carlucci, o mítico embaixador norte-americano em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril. Personagem este que não se limita a enunciar a tese: sublinha ainda que o 25 de Abril foi um desses momentos e encarrega uma jornalista portuguesa de voltar ao seu país, 30 anos depois, e fazer uma reportagem sobre esse acontecimento, a qual será o primeiro episódio de uma série dedicada aos raros momentos de paz e harmonia que pontuam a história da humanidade.

 

Este é o ponto de partida de um romance que só poderia ter sido escrito por Lídia Jorge. A dimensão onírica, tão presente em toda a sua obra, é aqui essencial para conferir aos factos históricos a dimensão humana que por vezes é esquecida e a dimensão mágica que não pode faltar na abordagem de uma lenda. Na verdade, o que aqui é feito não é o relato dos factos, já tantas vezes repetidos, mas antes a descrição da vivência desses factos por aqueles que neles participaram. É uma viagem, não tanto ao coração da fábula, como se lê no título da segunda parte do livro, mas, especialmente, ao coração daqueles que construíram essa fábula com os seus actos, as suas reacções, os seus instintos. Daqueles que nos habituámos a ver como heróis e que, afinal, são tão mortais como qualquer um de nós.

No entanto, apesar do seu radioso ponto de partida, este livro não é uma ode à exultação vivida naquele dia. E não o é porque a autora faz a ponte, sempre com referência aos protagonistas da revolução, entre o que viveram então e o que vivem agora. E aqui entra, mais uma vez, a teoria inicial: se estamos a falar de intervalos luminosos, então, de acordo com a própria noção de “intervalo”, os mesmos terão de terminar pouco depois do seu início e dar lugar, de novo, às trevas que vieram interromper. E quem foi parte integrante do brilho daquela ocasião, ao ver-se de volta à escuridão, terá necessariamente de entristecer, de definhar, de se tornar uma sombra daquilo que um dia foi. Ao reencontrarmos, pela mão de Lídia Jorge, os heróis de Abril no contexto actual, é impossível não sentirmos o coração apertar-se perante a ruína do sonho e o consequente desmoronamento dos espíritos que o sonharam.

Resta dizer que o momento da publicação desta obra não podia ser mais adequado. A autora já afirmou diversas vezes que não pensou o lançamento do livro de propósito para acontecer nas vésperas da comemoração dos 40 anos do 25 de Abril, pelo que só posso concluir que se tratou, também aqui, de uma sábia orquestração do universo. Mas a oportunidade deste lançamento vai mais longe. Surge num momento em que o povo português desespera, sujeito a abusos de autoridade de que não se consegue defender, empobrecido e desrespeitado por quem devia protegê-lo. Poderia haver melhor ocasião para relembrar a este povo aquilo de que foi capaz há 40 anos? Que, por muito esmagadoras que pareçam as dificuldades, é sempre possível ultrapassá-las? Que a alma não é anulável por decreto?

Por fim, não posso deixar de aqui anotar a única objecção que este livro me levantou. Sei que estamos no domínio da fábula. Sei que devemos uma enorme gratidão a todos os que fizeram o 25 de Abril. Mas, ainda assim, não será um pouco de exagero dizer que Otelo tem “o coração de um São Francisco de Assis” (pág. 224)???

 

Excertos:

 

“Só se merece viver se acaso se sobrevive.” (pág.88).

 

“O meu marido era muito compreensivo, dizia que havia uma proporção matemática entre o tempo que se passa sem liberdade e o tempo que se demora a aprender a viver em liberdade.” (pág. 240).

 

“Foi muito lindo, dizia ele. E eu concordo. Tão lindo que se tornou difícil sobreviver àquele momento. Agora sou eu quem o está a dizer. sou testemunha. Quem uma vez faz rodar as agulhas sobre um tal mostrador, em seguida, passa a conviver mal com a batida regular das horas. Difícil sobreviver aos dias, meses, anos, que vêm depois, quando o bater das horas já se transformou em rotina.” (pág. 244).

 

Publicações Dom Quixote, 2014.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Os Memoráveis – Lídia Jorge

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s