O Mundo Invisível – Shamin Sarif

omundoinvisivel“O Mundo Invisível” estava na minha lista desde que foi editado (2009), e na minha estante desde Maio deste ano. Quando saiu para o mercado encontrou algum sucesso devido a comentários e críticas positivas, mas a verdade é que é mais um livro a padecer do drama do esquecimento, fruto da grande oferta de livros que, semanalmente os leitores têm à disposição.

Seja como for, e porque além de ler muitas novidades, gosto de cumprir e manter todos os livros que me vão interessando num certo caderninho de desejos literários, “O Mundo Invisível” teve, obviamente, o seu lugar nas minhas leituras.

E que leitura fantástica foi. Um dos melhores livros que tenho lido. A ação decorre na África do Sul no início dos anos 50, numa época que considero socialmente doente. O Apartheid foi muito para além do racismo, colocou completamente à parte todos os que não eram brancos, praticamente ilegalizou a existência de outras etnias, impedindo-as de conviver, ou sequer partilhar o mesmo espaço com brancos.

A autora não se perde demasiado em descrições sociais ou em manifestar opiniões políticas. É uma narradora, e uma excelente narradora, uma contadora de histórias que fala sobre o amor que pode nascer num clima de ódio e perseguição constante. Curiosamente esta história decorre no seio da população Indiana que vive na zona de Pretória, os seus hábitos, costumes e histórias de família. Percursos de emigração e busca de melhores condições de vida de um país castrador e limitador como é a Índia (principalmente para as mulheres),para um outro pejado de leis e regras sociais atrozes.

Na Índia os direitos da mulher eram (são?) inexistentes, e esta tradição mantém-se nestas famílias Indianas que vamos conhecendo. É como se as mulheres vivessem sempre dentro do casulo das regras familiares impostas pelos homens e pelas mulheres mais velhas, e depois tivessem ainda uma espécie de casca difícil de quebrar das regras do Apartheid.

Não poder estar junto de quem amamos é duro, mas não o poder fazer por ser ilegal e chegar a implicar perseguição policial é violento.

“O Mundo Invisível” conta várias histórias de amor, mas a mais tocante (e principal) é a que une Amina e Miriam, duas mulheres indianas a viver na África do Sul. Um amor bonito que surge naturalmente. Miriam é casada dentro das “regras” do casamento indiano. Não conheceu o amor, o marido quis casar com ela depois de a ter visto algumas vezes numa janela. Amina é uma força da natureza. Mais jovem, destemida, trabalha por conta própria, algo impensável para uma mulher Indiana, cujo objetivo de vida deverá ser fazer um bom casamento, aqui entenda-se como bom casamento aquele que agrada à família, subjugar-se para o resto da vida às vontades do marido e da família deste.

Infeliz, Miriam admira a independência de Amina. A sua forma que quebrar convenções que Miriam nunca colocou sequer em causa. Miriam vai acordando de um sono mau, de uma dormência triste para sensações de felicidade e prazer.

Uma história de amor que não pode ser, numa sociedade que nunca deveria ter existido, “O Mundo Invisível” não se vê mas sente-se, e acorda para a vida uma mulher adormecida pela tristeza.

Recomendo e classifico de imperdível. Um livro que faz pensar sobre a sociedade, a humanidade (ou falta dela), sobre a forma como as regras moldam e transformam as pessoas em monstros, como tudo seria diferente se as mesmas pessoas habitassem diferentes locais. Introspetivo e muito pessoal, na medida em que é um livro a ser interpretado à medida das ideias (ou falta delas) de cada um. Muto bom.

Sinopse

“África do Sul. 1950. As primeiras leis raciais do apartheid começam a ser implementadas. Amina é uma jovem de espírito livre que desafiou as convenções da comunidade indiana em que cresceu e decidiu trabalhar por conta própria. É dona de um café, um sítio cheio de boa disposição, música, comida caseira… e mistura de raças. O seu sócio é negro, a sua empregada é mestiça, a clientela é de todas as cores e feitios – e Amina tem muitas vezes de subornar a polícia para conseguir manter o café aberto.
Miriam é uma jovem indiana mãe de família, tradicional e subserviente. O seu casamento foi combinado pela família e ela faz todos os possíveis para manter um bom ambiente em sua casa – apesar dos acessos de raiva do marido.
Quando estas duas mulheres se conhecem, o encontro entre os seus dois mundos vai transformar as suas vidas…”

Contraponto, 2009

Texto escrito em 2012

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s