No Harém de Kadhafi de Annick Cojean

Sei que existem vários livros com capas semelhantes a esta, todos eles retratando uma evidência que elas não deixam esconder e que todos nós conhecemos quase sempre por ouvir falar e por relatos impressionantes. Também esta obra, relatada por uma jornalista, faz-nos chegar momentos de puro horror numa sociedade onde é atribuido à Mulher um papel diferente, redutor e impróprio. Não há adjectivos suficientes para o classificar, e, por isso, não o farei.

A história de vida de Soraya mais parece uma história doutro mundo que não este, dito civilizado! Muammar Kadhafi possuia um discurso preparado sobre o papel das mulheres no futuro da Líbia. Um discurso que muitos entenderam como inovador e ele surge, assim, como libertador. As crianças/mulheres que ele violou e espancou, ao longo da sua longa permanência no poder, vieram a conhecer, na realidade, o quão enganador ele podia ser. Vitimas de um predador que não lhes dava tréguas, elas eram, posteriormente, marginalizadas pela sociedade e pela própria familia.

Para além da história de Soraya e de outras mulheres que preferiram o anonimato, Annick, relata-nos as suas dificuldades e todas as obstruções que sentiu ao querer investigar este assunto, ainda hoje, tabu. A lei do silêncio impera e poucas pessoas querem testemunhar: uns porque participaram nesse regime corrupto, ajudando a angariar “presas”, outros porque preferem esquecer. Os crimes sexuais não são, por isso, debatidos nem julgados. O que resta às vítimas?

Terminado em 14 de Março de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Soraya tem apenas 15 anos quando, certa manhã, recebe a notícia da visita do líder da Líbia, Muammar Kadhafi, à sua escola. Como praticamente todos os jovens líbios, também ela cresceu no culto da veneração ao Guia, encarado como um deus, vivendo «num olimpo inatingível». Quando é apresentada ao Coronel, este pousa uma mão sobre a sua cabeça e acaricia-lhe os cabelos.


A vida de Soraya, a sua infância e todas as esperanças de futuro terminam nesse exato momento, pois com esse gesto o Guia acabou de indicar às suas guardas que Soraya passará a ser sua escrava sexual.

Nos anos seguintes, Soraya é torturada, violada, espancada, obrigada a consumir álcool e drogas. Tenta por várias vezes escapar, e consegue mesmo fugir do país, mas o regime de terror em que vive torna-a frágil, incapaz de interagir com os outros de forma saudável. Nem sequer a morte e o desaparecimento dos seus algozes vem apaziguar o medo, a vergonha, a revolta.


A jornalista Annick Cojean foi a fiel depositária desta e de outras histórias, conduzindo uma investigação que traz a lume a utilização das mulheres líbias como armas de guerra no seio de uma sociedade corrompida, cuja população é, ainda hoje, simultaneamente vítima e cúmplice da uma política de silêncio que urge romper, para que se faça finalmente justiça.

 

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