“Mistérios” de Knut Hamsun

Mistérios_capa

O título deste notável romance exprime na perfeição a sua essência: mistérios. Chegar  ao fim desta leitura foi quase como retornar ao seu início; tive a sensação de ter completado um percurso circular uma vez que os mistérios evocados pelo autor permaneceram, em larga medida, incólumes, intocáveis, quase tão indecifráveis no fim do livro quanto no seu começo.  A escrita brilhante de Hansum intriga, seduz, maravilha, fascina e, acima de tudo,  confunde o leitor. Tomando emprestadas as palavras de Afonso Cruz em “Para onde vão os guarda-chuvas”, este é um livro que nos “despenteia os pensamentos” e o espírito e nos traz um protagonista único e inesquecível: Johan Nagel. O carácter misterioso deste personagem perdura ao longo da história; é uma figura opaca e indecifrável que continuamente se contradiz, um agitador e um provocador mas também uma presa dos seus próprios anseios e desejos. As suas atitudes e comportamentos parecem não ter outro fim que não o de expôr os segredos mais adormecidos  dos habitantes de uma pequena cidade. Correndo o risco de estar a escrever algo incorrecto em termos de ciência da Psicologia, para mim, Nagel evoca o arquétipo jungiano do “Trickster”, uma força incontrolável que emerge das sombras do inconsciente colectivo com a missão de agitar e tornar revoltas as águas daquela sociedade; de trazer à luz do dia as contradições, a hipocrisia e as manipulações que a permeiam , semeando o caos e ao mesmo tempo progredindo em direcção à autodestruição. Vejo Nagel como um espelho da natureza contraditória e inquieta do ser humano, uma encarnação extraordinariamente bem construída da nossa essência paradoxal. Acabei a leitura de “Mistérios” com mais perguntas do que quando a iniciei mas tal não me incomodou de modo algum. Pelo contrário, talvez fosse essa a intenção do autor: “despentear-nos”os pensamentos e a alma, provocar-nos e fazer-nos olhar para dentro, para os nossos abismos mais profundos para podermos conhecer e, talvez entender tanto a força quanto a fragilidade que nos são inerentes.

Não foi nada fácil selecionar alguns excertos para aqui deixar; este é um livro repleto de passagens belíssimas e/ou extraordinárias que muito me agradou.

Excertos:

“Estava num estranho e eufórico estado de espírito; cada nervo seu vibrava; surgia música através do seu sangue; era parte da natureza, do sol, das montanhas; era omnisciente; falavam com ele as árvores, a Terra, o musgo. A sua alma entrou em crescendo, como um órgão com todas as teclas arrancadas. Nunca esqueceria como esta música celestial parecia pulsar no seu sangue.”

“ O que é que as pessoas sabem realmente sobre a vida? Inserimo-nos na linha, seguimos o padrão estabelecido pelos nossos mentores. Tudo se baseia em assunções, e até o tempo, o espaço, o movimento e a matéria não passam de suposições. O mundo não tem nenhum novo conhecimento a fornecer, aceitando simplesmente o que lá está.”

“A leste e a oeste, em casa e no estrangeiro, achava que as pessoas eram sempre as mesmas; a mesma vulgaridade, a mesma hipocrisia, desde o pedinte que colocava ligaduras numa mão perfeita sob o céu azul e cheio de ozono. E ele, Nagel, era melhor do que os ouros? Não era melhor, mas aquele era o fim.”

 

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