“O pintor debaixo do lava-loiças” de Afonso Cruz

Pintor_AC

Muitos  e melhores que eu

Sobre ti linhas conceberam.

É difícil dizer algo meu,

Diverso do que pensaram.

Nestas estrofes mui toscas

Escuto-me a repetir,

Palavras sempre poucas;

Pequeno livro, grande sentir.

Livro de pensar,

Livro de sonhar,

Livro de filosofar.

Livro de encantar.

Livro de reflectir,

Livro de imergir,

Livro de divertir,

Livro de sorrir.

Periscópio da alma,

Grande encantamento,

Saboreado em calma,

Em contentamento.

Nada mais a dizer:

Um verso final,

Um livro a ler,

Fenomenal!

Excertos:

“A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. (…) A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou nos afoga. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há a palavra mar que afunda todos os navios.”

“Outra situação que Sors considerava capaz de avaliar as pessoas em termos morais era a capacidade que estas tinham para compreender a mais difícil das operações aritméticas: dividir o pão. Sors tinha reparado que essa é que era a matemática pura, e também a conta mais difícil de fazer, apesar de não ter vírgulas, nem números irracionais, nem nada disso. Temos um bocado de pão e temos de o dividir por dois. Parece elementar, mas é demasiado complexo. Nenhuma escola ensina esta operação com eficiência. A prova está à nossa volta.”

“- O mundo que vemos é um consenso – disse Sors. – A maioria é que diz como é o mundo. Se a maioria olhar para uma mesa e disser que é uma mesa, a minoria que acha que é outra coisa é internada.”

“É como se uma árvore desaguasse no céu. Nascesse na terra e desaguasse no céu. Ou se quisermos, ao fazer o pino (e Jozef Sors fazia muitas vezes o pino), a árvore tivesse as suas raízes no céu e desaguasse na terra. Era tudo uma questão de ginástica. Era assim que Sors falava da arte. Ou estamos a olhar as coisas de uma maneira ou de outra.”

“Há pessoas que julgam que podem ler um livro do princípio ao fim, mas isso não é possível. A última página de um livro é a primeira do próximo (…)”

Sinopse: A liberdade, muitas vezes, acaba por sobreviver graças a espaços tão apertados quanto o lava-loiças de um fotógrafo. Esta é a história, baseada num episódio real (passado com os avós do autor), de um pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX, no império Austro- Húngaro, que emigrou para os EUA e voltou a Bratislava e que, por causa do nazismo, teve de fugir para debaixo de um lava-loiças.

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