“Beatles” de Lars Saabye Christensen

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O momento presente é, indubitavelmente, o mais importante por ser a única realidade efectiva, aquele instante crucial onde se vive, se revisita o que foi e se imagina o futuro, ao mesmo tempo que as experiências de hoje se vão convertendo nas memórias de amanhã. No entanto, o passado, qual companheiro fiel, está sempre connosco e influencia inevitavelmente o nosso agora. É por isso que sempre achei fundamental conhecer a História dos tempos que nos precederam para ser capaz de compreender todas as dimensões do presente e, talvez, com algum engenho e sorte, evitar a repetição de certos eventos nefastos no futuro. Nada nasce de geração espontânea pois, à excepção daquela primeiríssima célula surgida no oceano primordial, tudo germina a partir de algo pré-existente. A década de 60 do século XX foi uma época charneira, uma altura de grande criatividade bem como de mudanças políticas e sociais decisivas para a evolução da chamada sociedade ocidental e não só. Quer se queira, quer não; quer se goste ou não (e eu até gosto muito), os Beatles são uma referência fulcral dos efervescentes anos sessenta e um marco importantíssimo na história do “rock”. Através da sua escrita, fluida e simples, mas exímia na recriação desta década, este romance de Lars S. Christensen transporta-nos numa autêntica viagem através do tempo; fica-se com a sensação de estar mesmo ali, naquela época e naqueles lugares, ao lado dos seus quatro jovens protagonistas. Vejo neste livro um carácter duplo; por um lado é informal e lúdico como compete a uma obra ficcional e, por outro, pode ser visto como um documento histórico uma vez que me parece ter conseguido captar de forma magistral o espírito daqueles tempos. Contudo, “Beatles” é acima de tudo a história da adolescência conturbada de Kim, Gunnar, Ola e Seb, da sua transição para o mundo dos adultos e da sua fortíssima e inabalável amizade. Sempre com a música dos Beatles como pano de fundo. Para mim foi impossível não gostar deste livro. Uma leitura que recomendo vivamente, sobretudo a quem se interesse pelos fabulosos anos 60 e/ou seja “beatlemaniac” no século XXI.

Excertos:

“Na noite anterior tinha estado a estudar e exercitar equações e geometria, esforcei-me excessivamente, enquanto o Verão borbulhava lá fora e as gaivotas chegavam do fiorde, com gritos roucos e bicos escaldantes e largavam dejectos na minha janela. Estudei o x e o y, girei o compasso, desenhei triângulos e ângulos e linhas, e do lado de fora as gaivotas gritavam. Pensei na pele de cobra, que o futuro era como uma dessas cobras, uma jibóia “constrictor” descida das árvores e pela qual já havíamos sido engolidos, sem qualquer hipótese de fugir-lhe, que nós já estávamos no ventre quente do futuro a ser digeridos.”

“- Oh pai. O qu´é uma cítara?

– Calma. Não havia barulho com este menino, não, ou antes, havia uma barulheira dos diabos, porque ele tocava cítara, todas noites. Era o consolo dele. Um instrumento enorme. Pelo menos cem cordas. Soa a mulheres maldispostas.

– Como que uma guitarra indiana? – perguntou-lhe Seb.

– Isso mesmo. Gosto em vê-los rapazes.

E o comandante desapareceu. Pusemos de novo o Norwegian Wood.

Ena. Índia?”

“Lá fora, a escuridão cinzenta baixou por entre as casas e tingiu a rua. De repente, o Seb animou-se e começou a remexer num monte de discos.

– Hoje recebi um do meu velhote – silvou ele.

– Um quê? – perguntámos em coro.

– O último disco dos Beatles!

Lançámo-nos sobre ele, pusemos o disco no orifício: Paperback Writer. Tocámo-lo umas 10 vezes seguidas. Virámo-lo. O outro lado chamava-se Rain. Vinha mesmo a calhar.

– Qu’é q-q-que quer dizer Paperback Writer? – perguntou Ola.

– Escritor – disse eu. – um que escreve livros de bolso.

Ola reflectiu.

– Po-po-podia ter escrito um livro s-s-sobre nós. Um li-li-livro bem gordo!”

“Ola estacionou no meio da Karl Johan. A Alameda da Universidade estava cheia de gente. Dançavam e saltitavam com bandeiras, garrafas e foguetes. No céu mostrava-se um risco de claridade, e nós saltámos de cabeça para o meio da dança, completamente eufóricos, felizes e doidos. Fazíamos piruetas e éramos os vencedores do mundo.”

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2 pensamentos sobre ““Beatles” de Lars Saabye Christensen

  1. Enviei o link do teu post ao Beatlemaníaco do meu amigo Luis Pinheiro de Almeida (que me disse ter um exemplar deste livro com dedicatória do próprio autor) e me prometeu que o vai ler brevemente. Sei que ele tem estado bem ocupado a fazer um e-book sobre os 40 anos do 25 de Abril de 1974

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