Índice Médio de Felicidade – David Machado

Índice Médio de Felicidade

Era uma vez três amigos. A crise destruiu-lhes as vidas. Dois sucumbiram. O outro não.

Daniel viu a sua vida colapsar. Daniel recusou-se a colapsar também.

A questão mais evidente levantada por este livro é até onde será razoável manter o optimismo. Daniel perde tudo – emprego, casa, família -, vê-se a viver em condições surreais e é-lhe oferecida uma possibilidade concreta de refazer a vida: sair de Lisboa, hospedar-se em casa dos sogros, que farão o favor de o receber, reunindo-se assim novamente à mulher e aos filhos, e viver do ordenado da mulher até arranjar trabalho. Mas Daniel acha que merece melhor. Não se conforma com a dependência da boa-vontade dos outros. É bom naquilo que faz e teima em esperar que surja a oportunidade que merece, de trabalhar na sua área e prover ao seu próprio sustento. Portanto, recusa. E, enquanto espera, vive como muito poucas pessoas aguentariam viver. Porque acredita firmemente que a oportunidade chegará.

Daniel pode ser visto como um obstinado irracional, desprovido da flexibilidade necessária para se adaptar a novas circunstâncias, ou como um modelo de resiliência em nome de um ideal. Seja como for, gera simpatia. É inevitável: quem se recusa a ceder à crueldade da vida, seja por estupidez ou por egoísmo, será sempre olhado com apreço… e alguma admiração.

Mas as questões levantadas não se ficam por aqui. A meu ver, uma das mais importantes é a do conflito entre as necessidades individuais e as alheias. Até determinado ponto, ninguém questiona que devemos tentar ajudar quem nos rodeia, mesmo que, para isso, tenhamos de alterar um pouco o nosso percurso. Mas haverá um limite? Haverá um ponto em que a racionalidade imponha que nos recusemos a ajudar outrem porque o custo pessoal dessa ajuda seria demasiado alto? E, em caso afirmativo, onde será aceitável traçar-se a fronteira?

E depois há o tema que dá o título ao livro: a felicidade poderá ser contabilizada? Medida? Calculada? Será possível sabermos em que grau somos felizes? Que factores deverão ser tidos em conta nesse cálculo? Será uma avaliação simples ou complexa? Devemos concluí-la num minuto ou depois de anos de estudo? E valerá a pena saber o resultado?

Todas estas questões são enquadradas numa narrativa agradável e fluida, feita na primeira pessoa pelo protagonista Daniel, que prende e cativa o leitor; há acontecimentos bizarros, desabafos, considerações cáusticas, reflexões surpreendentes. É impossível parar de ler. E, quando acaba, deixa saudades. Como acontece sempre com os bons livros.

Excertos:

Daniel, a tua habilidade para resolveres qualquer questão através da esperança dá cabo de mim.

Foda-se, isto não é esperança. É ser exigente. Fazemos tudo certo, damos o nosso máximo, calculamos todos os passos, empregamos todo o esforço. O mínimo que podemos pedir é que a vida retribua.

Mas não vou matar-me a procurar explicações para o que aconteceu. Esse é o problema de toda a gente neste momento: as vidas que tinham desapareceram, as pessoas que eram já não existem, e ainda assim andam todas a lutar por ontem, sem saberem que ontem é uma coisa pela qual não vale a pena lutar em nenhuma circunstância. Por isso adiante.” (pág. 77).

“Um dia vamos todos ser alimentados a lasanha e mousse de chocolate pelas veias só para não termos de usar o maxilar, só para que o nosso aparelho digestivo tenha algum descanso. És capaz de imaginar a aberração? Só que então alguém irá levantar-se e afirmar, no seu sorriso mais consolador: este novo método de abastecimento do corpo traduz-se numa inequívoca melhoria de vida. Um dia, a vida dos seres humanos irá resumir-se a um sono de cento e trinta anos, uma total ausência de actividade física, o conforto absoluto, se possível eliminaremos também os sonhos, não há nada que provoque tanta fadiga como sonhar, e o cérebro das pessoas ficará tão inerte quanto possível, talvez então sejamos completamente felizes.” (págs. 82-83).

“Quando é que desistir se tornou aceitável? Nós éramos melhores do que isto, havia uma força imensa nos nossos espíritos, o lado físico das coisas não era suficiente para nos travar a vontade. Olha para nós agora. O problema já não é sequer andar cada um a lutar para seu lado. O problema é a quantidade de pessoas que já não lutam sequer.” (pág. 124).

“Nunca será suficiente. Podemos sempre fazer mais. Sabemos que há pessoas a morrerem de fome, de doenças tratáveis com os medicamentos mais simples e banais, de frio, de calor, de angústia. Mas não fazemos nada. E eu digo-te: Porque é que não fazemos nada? Temos a nossa própria vida para viver. Isso não pode ser considerado uma coisa má.” (pág. 177).

2013, Publicações Dom Quixote

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