“Todas as Cosmicómicas” de Italo Calvino

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O titulo deste livro não poderia ser mais adequado: “Todas as Cosmicómicas”. “Todas” porque reúne uma série de pequenas histórias escritas por Calvino na década de sessenta do século passado e “Cosmicómicas” porque são textos repletos de um humor incrivelmente criativo e inteligente que nos transportam numa extraordinária viagem através dos tempos… Não! Esperem, não é bem assim. Em abono da precisão, devo dizer que a viagem começa ainda antes do aparecimento do tempo, ou seja, antes do surgimento do universo. Começamos então a acompanhar o percurso de um personagem, de contornos vagos e imprecisos, chamado Qfwfq , o qual vai assumindo várias formas ao longo da evolução do universo, da nossa galáxia, do sistema solar e também da Terra. A linguagem empregue por Calvino é rica em jogos de palavras, simultaneamente brilhantes e engraçados, embora alguns sejam bastante densos e redundantes, sobretudo aqueles que se encontram nas Biocómicas. Isto faz todo o sentido para mim, pois, o que é a vida senão um ciclo de eventos mais ou menos complicados e  redundantes, de padrões semelhantes que se repetem através dos tempos? Somos todos cópias imperfeitas uns dos outros e também dos que nos precederam e dos que virão a seguir a nós. Tenho alguma dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever esta espécie de híbrido bem humorado de literatura, astronomia, física, matemática e biologia mas creio que nele está patente, de modo inequívoco, o gigantesco talento literário do seu autor. Assim, resolvi definir algumas palavras-chave para “Todas as Cosmicómicas” bem como traduzir numa espécie de equação matemática, provavelmente completamente idiota e absurda dado que os meus conhecimentos acerca dessa nobre disciplina são manifestamente parcos, a sua essência:

Palavras-chave: Imaginação/Hilariante/Memorável/Genial/Fantástico

Equação: Id+ Hi + E g = L f

I = imaginação; d= descomunal; H = humor; i = inteligente; E = escrita; g = genial; L = livro; f = fantástico

Excertos:

“- É claro que estamos todos ali – disse o velho Qfwfq – , e senão, onde poderia ser? Ainda ninguém sabia que podia haver o espaço. E o tempo, idem: o que querem que fizéssemos do tempo, estando ali todos apertados que nem sardinhas em lata?

Eu disse “apertados que nem sardinhas em lata” só para usar uma imagem literária: na realidade não havia sequer espaço para estarmos apertados. Cada ponto de cada um de nós coincidia com todos os pontos de cada um dos outros num único ponto que era aquele em que estávamos todos.”

“Rapazes, se eu tivesse espaço como gostaria de vos fazer umas tagliatelle!” E naquele momento pensávamos todos no espaço que ocupariam os braços roliços dela movendo-se para todos os lados com o rolo para cortar a massa, o peito dela inclinado sobre o montão de farinha e ovos que enchia a grande travessa, enquanto os seus braços amassavam amassavam, brancos e untados de azeite até aos cotovelos; pensávamos no espaço que ocupariam a farinha, e os campos para cultivar o trigo, e as montanhas donde corria a água para regar os campos, e os pastos para as manadas de vitelos que dariam a carne para o molho; no espaço que seria preciso para que o Sol viesse amadurecer o trigo; no espaço para que das nuvens de gases estelares o Sol se condensasse e queimasse; na quantidade de estrelas e galáxias e conjuntos galácticos em fuga no espaço que seriam precisos para manter suspensas todas as galáxias todas as nebulosas todos os sóis todos os planetas, e ao mesmo tempo que o pensávamos este espaço ia-se formando imparavelmente, ao mesmo tempo que a senhora Ph(i)Nk0 pronunciava estas palavras: “…tagliatelle, imaginem rapazes!”, o ponto que a continha a ela e a nós todos expandia-se num irradiação de distâncias de anos-luz e séculos-luz e biliões de milénios-luz, e nós atirados para os quatro cantos do universo (…)”

“A nós já parecia uma grande coisa, e era-o certamente, porque só se começarmos a existir virtualmente, a flutuar num campo de probabilidades, a tomar de empréstimo e a restituir cargas de energia ainda todas hipotéticas, nos pode acontecer uma vez ou outra existir de facto, ou seja, curvar à nossa volta um bordo de espaço-tempo por mínimo que seja: como aconteceu a uma quantidade sempre crescente de não-sei-quê – chamemos-lhes neutrinos porque é um belo nome, mas então neutrinos ninguém sonhava que pudessem existir -, ondulando uns por cima dos outros numa sopa escaldante de um calor infinito, espessa como uma cola de densidade infinita, que se insuflava num tempo tão infinitamente curto, que nada tinha a ver com o tempo e, com efeito, o tempo ainda não tivera tempo de demonstrar o que seria – e ao insuflar-se produzia espaço onde o espaço não se fazia a menor ideia do que fosse. Assim o universo, de infinitésima borbulha no polimento do nada, expandia-se fulmímeo até às dimensões de um protão, depois de um átomo, depois de uma ponta e depois da cabeça de alfinete, de uma colher, de um chapéu, de uma sombrinha…”

“ Num certo sentido, podia estar descansado: nada do que fazia, bem ou mal, se perdia completamente. Sempre se salvava um eco, aliás: muitos ecos, que variavam de uma ponta à outra do universo, naquela esfera que se dilatava e gerava outras esferas, mas eram notícias descontínuas, discordantes e não essenciais, das quais não resultava o nexo entre as minha acções, e uma nova acção não conseguia explicar ou corrigir a outra, de modo que permaneciam somadas umas às outras, com sinal positivo ou negativo, como num polinómio compridíssimo que não seja possível reduzir à expressão mais simples.”

“Era uma condição rica e livre e satisfeita, a que eu tinha então, exactamente o contrário do que vocês poderão julgar. Era solteiro (o sistema de reprodução dessa época não exigia acasalamentos, nem sequer temporários), saudável e sem demasiadas pretensões. Quando se é jovem, tem-se à frente a evolução inteira com as vias todas abertas, e ao mesmo tempo pode gozar-se o facto de estarmos ali no rochedo, polpa de molusco chata e húmida e bem-aventurada.”

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2 pensamentos sobre ““Todas as Cosmicómicas” de Italo Calvino

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